O Reino sem Mapa
Kael desceu de Nox com uma coroa que não usava e um exército que ainda não existia.
A notícia viajou mais rápido que eles: o monstro do pântano entrara em Bel-Tor, sobrevivera à Forja de Coroas e saíra com anões negociando em vez de sua cabeça. Para nobres humanos, isso era ameaça. Para criaturas escravizadas, era boato perigoso. Para camponeses cansados de impostos, era uma história estranha demais para ignorar.
Ao retornar a Saint-Orvel, Kael encontrou o acampamento maior. Varr organizara defesas, comida e até uma assembleia semanal em que todos gritavam por ordem de inscrição. Tessa ficou impressionada contra a vontade. Sika fingiu não estar orgulhosa.
— Eles gritam muito — Varr disse.
— Democracia ou ataque? — Garon perguntou.
— Ainda estudo diferença.
Kael apresentou o novo pacto da Lei da Fome. Não foi discurso épico. Foi uma reunião longa, difícil e cheia de perguntas. O que aconteceria com monstros que já tinham devorado inocentes? Como punir fome sem repetir a Igreja? Quem julgaria? Humanos poderiam entrar no pacto? E se traíssem? E se monstros traíssem primeiro?
Kael não tinha respostas para tudo. Essa honestidade irritou muitos. Também convenceu alguns.
Mirelle propôs tribunais mistos para casos de violência entre povos. Tessa exigiu direito de veto quando kobolds fossem acusados por humanos. Sika pediu que crianças de qualquer espécie fossem protegidas antes de debates. Korr sugeriu morder mentirosos. A proposta foi registrada, mas não aprovada.
Liora, ainda recuperando o ombro, escreveu o texto do Pacto de Saint-Orvel. A letra dela era elegante demais para um documento nascido entre lama, sangue e sopa ruim.
Naquela noite, Kael encontrou-a no alto da torre quebrada. A cicatriz no ombro direito dela já fechara, deixando uma linha rosada sob a gola.
— Você está distante — ela disse.
— Estou tentando não virar símbolo.
— Péssima notícia. Já virou.
Ele olhou para a coroa negra flutuando, invisível para quase todos quando adormecida, mas sempre pesando.
— Símbolos comem pessoas também.
Liora encostou a mão esquerda na dele, longe da marca de Nadir para não doer.
— Então deixe alguém lembrar que você ronca quando está exausto e odeia sopa de raiz. Ajuda a reduzir a tragédia.
Kael riu baixo. Entre eles havia afeto, medo e uma guerra inteira. Nada simples o bastante para promessa. Mas quando Liora entrelaçou os dedos nos dele, Kael não recuou.
A paz frágil acabou com a chegada de um mensageiro humano. Era um rapaz de dezesseis anos, tremendo, carregando bandeira branca. Vinha da capital de Aurel. O rei humano, pressionado pela Igreja e pelo Baronato de Vhal, declarara Kael ameaça soberana. Todos os territórios que abrigassem monstros do pacto seriam considerados rebeldes.
Junto da mensagem havia outra, escrita por mão diferente.
Mirelle reconheceu o selo do Supremo Hierofante.
— Eles vão abrir a Cripta Solar — disse, e sua voz perdeu cor.
Liora fechou os olhos.
— Isso é lenda.
— Não. É vergonha enterrada.
A Cripta Solar guardava santos mortos preservados por magia, guerreiros sem vontade própria, movidos por luz e obediência. A Igreja que chamava Kael de profanação planejava usar cadáveres sagrados como armas.
Kael amassou a carta.
A fome antiga, quieta desde a forja, sussurrou satisfeita. Humanos também devoram seus mortos.
— Preparem Saint-Orvel — Kael disse. — E mandem mensageiros para toda criatura que já teve medo de coleira. Se querem me chamar de rei demônio, vamos descobrir quantos súditos esse insulto consegue acordar.

Comentários (0)
Faça login pra comentar
EntrarNenhum comentário ainda. Seja o primeiro!