A Lei da Fome
Ruk tentou matar Kael antes do amanhecer subterrâneo.
Nas cavernas de Nhar-Khûm não havia sol, mas os goblins sabiam contar o tempo pelo calor das raízes vermelhas que atravessavam o teto. Quando elas brilhavam, era ciclo de caça. Quando escureciam, era ciclo de sono. Ruk esperou as raízes apagarem e entrou no canto onde Kael fingia dormir, carregando uma faca feita de costela humana.
Kael já o sentira chegando. O Faro de Ossos transformava o mundo em trilhas: sangue seco, dente quebrado, medo velho preso nas juntas. Ruk cheirava a ferro e gordura. Cheirava também a hesitação.
Kael rolou antes do golpe. A faca riscou a pedra. Ruk rosnou, surpreso, e chutou seu peito. O corpo pequeno de Grin voou contra a parede. A dor foi tão grande que Kael quase apagou, mas segurou o fêmur do lobo, sua única arma, e mirou o joelho do chefe.
O osso bateu com um estalo úmido. Ruk caiu de lado, urrando. Kael avançou por instinto, mas parou com a ponta quebrada do fêmur encostada na garganta do goblin maior. Poderia perfurar. Poderia devorar. O corpo inteiro implorava por isso.
— Se eu matar você — Kael disse, a voz ainda áspera demais — o próximo chefe vai tentar me matar também.
Ruk arregalou os olhos. Goblins entendiam ameaças, não argumentos.
— Então escuta. Eu não quero sua caverna. Quero sobreviver. Você me manda para caçar. Eu trago comida. Você não tenta cortar minha garganta enquanto durmo.
— Grin pensa que manda?
Kael pressionou a ponta contra a pele verde. Uma gota de sangue desceu.
— Grin morreu ontem.
A velha de orelha rasgada, que se chamava Morga, riu baixinho da entrada. Ela vira tudo. Seus olhos, opacos pela idade, guardavam inteligência demais para uma criatura que os humanos chamariam de praga.
— Corpo pequeno, língua grande — ela disse. — Talvez o poço tenha cuspido coisa errada dentro dele.
Ruk aceitou o acordo porque não tinha escolha. A partir daquele ciclo, Kael foi mandado para túneis mais fundos com três goblins jovens: Korr, magro e rápido; Sika, desconfiada e silenciosa; e Varr, que tremia tanto que mal segurava uma lança. Caçariam escaravelhos de ferrugem, criaturas do tamanho de cães que comiam minério e carne.
No caminho, Korr explicou o mundo em frases curtas. Acima das cavernas ficava o Reino de Aurel, governado por nobres humanos e protegido pela Igreja da Chama Clara. Para eles, monstros eram erros de criação. Goblins eram insetos. Orcs eram ferramentas de guerra. Demônios eram memórias proibidas.
— E rei demônio? — Kael perguntou.
Os três pararam. Até Sika olhou para ele.
— Palavra ruim — Korr sussurrou. — Palavra que chama caçador.
Antes que Kael perguntasse mais, o chão cedeu. Escaravelhos surgiram de buracos laterais, carapaças vermelhas, mandíbulas cortando faíscas. Varr gritou e correu. Um escaravelho o alcançou, arrancando sua perna na altura da coxa.
Kael sentiu a fome acordar com a visão do sangue. Sentiu também raiva. Não por bondade pura, talvez. Mas porque Varr tinha medo do mesmo jeito que ele. Porque ninguém ali escolhera nascer descartável.
— Korr, olhos! Sika, junta as pedras!
Eles obedeceram sem entender. Kael usou o Faro de Ossos para perceber as placas mais frágeis sob a carapaça. Korr saltou sobre um escaravelho e cravou a lança em sua órbita. Sika derrubou pedras na passagem estreita, prendendo os outros. Kael enfiou o fêmur quebrado sob a placa do pescoço da criatura e girou com todo o peso do corpo.
A luta durou pouco e pareceu durar uma vida. Quando terminou, Varr chorava, sem perna, e os escaravelhos restantes batiam contra as pedras.
Kael encarou o corpo morto. O núcleo vermelho pulsava sob a carapaça. Ele queria devorar. Queria o casco, a força, a resistência. Mas viu Varr se esvaindo ao lado.
— Se eu comer isso, posso salvar ele?
Korr não respondeu. Goblins não curavam. Goblins abandonavam.
Kael devorou o núcleo. Calor metálico entrou em suas veias. Perdeu outra memória: o gosto do café que bebia nas manhãs humanas. Em troca, ganhou pele mais dura nos antebraços e o Eco Carapaça de Ferrugem.
Usou os próprios braços como tala, pressionando a ferida de Varr até o sangue diminuir. Não era cura. Era improviso brutal. Mas Varr sobreviveu.
Quando voltaram ao covil, os goblins olharam para Kael como se ele fosse uma coisa nova. Não chefe. Ainda não. Algo pior: uma possibilidade.
Morga tocou a testa dele com dois dedos secos.
— Todo monstro come para ficar vivo — disse. — Só rei escolhe quem não será comido.

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