Vol. 1 Cap. 1 Um colega chega e age de forma absurda maio 29, 2026
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Meta 06/2026 (39,00%)Postado por miggigibe, ? Visualizações, Lançado em maio 29, 2026 Anterior ÍndicePróximo PDF
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Tradutor/Revisor: miggigibe
…Aperta, aperta.
Monica despertou com uma sensação macia contra a bochecha. Tinha adormecido sobre a escrivaninha, ainda com a caneta na mão.
Ergueu o olhar devagar e deu de cara com os olhos dourados de um gato preto.
O gato vinha apertando sua bochecha com a pata. Ao perceber que ela acordara, estreitou os olhos num sorriso satisfeito, quase humano.
— Ei, Monica. Já amanheceu. Você não pode dormir para sempre. O quê? Só vai acordar se um príncipe vier beijá-la, é? Princesa?
Sem se abalar com o gato falante, Monica esfregou os olhos e se sentou direito.
O gato preto era seu familiar. Ele não apenas compreendia a fala humana, como também sabia ler. Na verdade, era um leitor muito mais ávido que ela. Sempre que tinha um momento livre, aproveitava para ler, virando as páginas com agilidade usando as patas dianteiras. Gostava especialmente de romances de aventura, e provavelmente tirara a ideia do beijo do príncipe de algum deles.
— …Ugh. Bom dia, Nero. Já amanheceu mesmo? …Vou lavar o rosto…
Monica bebeu o resto do café frio que havia na caneca e se levantou. De costas para Nero, abriu a porta da frente e sentiu uma brisa fresca lhe fazer cócegas nas bochechas — sinal de que o verão se aproximava do fim.
A casinha precária onde Monica vivia ficava numa montanha do Reino de Ridill. Não havia nenhuma outra moradia por perto, e a vila mais próxima ficava a mais de uma hora de caminhada.
Monica deu a volta até os fundos da casa e tirou água do poço, o que exigia grande esforço de seu corpo pequeno. Nos últimos tempos, os sistemas de abastecimento de água avançaram bastante. Canos tinham se espalhado não só pelas grandes cidades, mas também pelas vilas menores da região. Naturalmente, porém, nenhum deles chegava à sua cabana na encosta da montanha.
Como havia crescido na cidade, no começo achara a vida na montanha inconveniente. Agora, no entanto, estava perfeitamente acostumada à sua casinha. Acima de tudo, a região era silenciosa e isolada.
Depois de encher um balde com água potável, ela recolheu algumas roupas que havia pendurado num varal improvisado para secar e voltou para dentro. Então, como se só naquele momento se lembrasse, olhou para o próprio reflexo no grande espelho no canto do aposento.
Uma conhecida praticamente obrigara Monica a ficar com aquele espelho, dizendo que ela deveria cuidar um pouco mais da aparência. O espelho em si era muito refinado e parecia deslocado naquele ambiente caindo aos pedaços.
Seu vidro elegante refletia uma garota magra, de cabelo desgrenhado, envolta num manto gasto. Embora fosse completar dezessete anos naquele ano, seu corpo mirrado era muito mais pálido do que deveria ser para a idade, quase da cor de um cadáver. Seus cabelos castanho-claros, separados de qualquer jeito em duas tranças, eram secos e sem brilho, mais ásperos que um feixe de palha. Sob a franja que ela deixara crescer sem controle, espiavam dois olhos redondos, ambos emoldurados por olheiras profundas.
Para dizer a verdade, sua aparência era péssima. Ela não estava em condições de ser vista por ninguém, mas, como passava os dias enfurnada numa cabana nas montanhas, esse tipo de coisa pouco lhe importava.
Ah*, pensou ela, *acho que hoje é o dia da entrega mensal…
Monica era extremamente tímida e tinha dificuldade para comprar coisas em lojas. Por isso, pedira às pessoas da vila ao pé da montanha que entregassem comida para ela.
Por um instante, hesitou, perguntando-se se deveria refazer as tranças. Mal pensou nisso, e alguém bateu à porta.
— Monica? Sua comida chegou!
A voz feminina e animada fez Monica se assustar. Ela puxou o capuz do manto até cobrir os olhos.
Enquanto isso, Nero saltou com agilidade para uma prateleira.
— Visita? Então acho que está na hora de eu fingir que sou gato, hein? Miau.
— S-sim.
Assentindo para Nero, Monica abriu a porta com nervosismo.
Uma carroça estava parada do lado de fora da casa, e ao lado dela havia uma menina de cerca de dez anos. Era uma garota cheia de energia, com cabelos castanho-oliva amarrados atrás da nuca. Seu nome era Annie, e ela vinha da vila próxima. Normalmente, era ela quem fazia as entregas para Monica.
Monica espiou por trás da porta e, tremendo, cumprimentou-a com um vacilante:
— O-olá.
Annie já estava acostumada aos hábitos de Monica. Afastou-a para o lado, abriu a porta por completo e começou a levantar os embrulhos de comida.
— Eu levo tudo para dentro — disse Annie. — Pode segurar a porta?
— P-posso…
Monica assentiu, nervosa, enquanto Annie carregava as mercadorias com habilidade.
A casa de Monica tinha poucos móveis, mas livros e pilhas de papéis cobriam as mesas e o chão, deixando pouco espaço para andar. A cama, é claro, já fazia muito tempo que estava soterrada por ainda mais papéis e livros. Ela nem conseguia se deitar nela. Era por isso que, ultimamente, vinha adormecendo sentada na cadeira.
— Aqui está sempre uma bagunça! Esses papéis são importantes? Posso jogar fora? — perguntou Annie, observando com desconfiança as folhas que dominavam o chão.
— S-são todos importantes!
— Ei, isso aqui são fórmulas? O que você está calculando?
Annie sabia ler e, por ser filha de artesão, também era boa com números. Tinha pouco mais de dez anos, mas era mais esperta que a maioria das crianças da idade dela. Ainda assim, mesmo para Annie, as fileiras e colunas de números naqueles papéis eram praticamente indecifráveis.
Monica baixou os olhos. Sem encarar a menina, respondeu:
— Hm, isso é… cálculo das, hum, órbitas dos planetas…
— Ah. E esses aqui? Tem um monte de nome de planta.
— …Hum, esses são… eu calculei as proporções de fertilizantes para plantas e coloquei numa tabela…
— Então e estes? Parecem símbolos mágicos.
— …Isso é, hum, um cálculo experimental para uma nova fórmula mágica composta, proposta por um professor de Minerva…
Monica brincava com a manga larga do manto enquanto respondia às perguntas em voz baixa.
Os olhos de Annie se arregalaram.
— Uma fórmula mágica? Você sabe usar artes mágicas, Monica?
— …Eu, hum, bem… I-isso…
Monica gaguejou, os olhos fugindo de um lado para o outro.
Nero, que fingia dormir na prateleira, miou como se dissesse: Opa, você está bem aí?
Monica continuou mexendo nos próprios dedos até que Annie, por fim, deu de ombros e riu de leve.
— Ha-ha. Claro que isso é impossível. Se você soubesse usar artes mágicas, estaria trabalhando na capital! Não vivendo como uma eremita aqui nas montanhas.
As artes mágicas eram uma forma de usar poder mágico, ou mana, para produzir milagres. Suas técnicas haviam sido, originalmente, segredos guardados com zelo pela classe nobre, mas, nos últimos anos, plebeus passaram a ter mais oportunidades de estudá-las.
Ainda assim, havia limitações. Era preciso ter grande riqueza ou talento para ingressar numa instituição de ensino de artes mágicas. Para um plebeu, tornar-se mago era um sucesso capaz de definir uma vida inteira.
Se alguém se tornasse alto mago, poderia ser contratado por uma família nobre ou conseguir emprego no Corpo de Magia, cujos membros eram praticamente celebridades.
Não havia como Monica, vivendo ali nas montanhas, ser uma maga. O comentário de Annie fazia todo sentido.
— Ah, Monica! Você ficou sabendo? Há só três meses, houve um ataque de dragões perto da fronteira oriental.
Os ombros de Monica saltaram sob o manto, e Nero, que fingia dormir na prateleira, abriu um olho. Sua cauda pendia preguiçosamente, balançando como o pêndulo de um relógio.
— Ouvi dizer que uns pterodragões enormes formaram uma horda e apareceram numa vila humana! Eram mais de vinte!
Pterodragões, como o nome sugeria, eram dragões com asas. Tinham inteligência inferior e eram menos temíveis que outros dragões, mas se tornavam extremamente difíceis de lidar quando agiam em grupo. Em geral, atacavam rebanhos, mas ataques de pterodragões famintos contra pessoas vinham se tornando mais comuns nos últimos anos.
— Ah! Ah, e também! Quem liderava os pterodragões! Era um dragão negro lendário! O infame Dragão Negro de Worgan!
Dragões cujos nomes especificavam sua cor, como dragões negros e dragões vermelhos, pertenciam a uma hierarquia superior e eram vistos como ameaças particularmente graves.
Entre eles, dizia-se que o dragão negro era o mais perigoso. As chamas únicas que ele expelia, as chamas negras, eram chamas de anátema. Podiam incinerar sem piedade até as barreiras defensivas de altos magos. Um único ataque de um dragão negro era capaz de reduzir um reino a cinzas com facilidade. De fato, eram criaturas de calamidade em escala épica.
— E! E os Cavaleiros dos Dragões foram matá-lo, mas uma integrante dos Sete Sábios estava com eles! Espera, você sabe quem são os Sete Sábios? São os melhores magos do reino. São incríveis, sabia?
— Ah, hum, entendo…
— A mais jovem é chamada de Bruxa Silenciosa! E dizem que ela derrotou o dragão negro sozinha e ainda derrubou todos os pterodragões!
Em vilas do interior, histórias desse tipo eram uma forma preciosa de entretenimento. Os olhos de Annie praticamente brilhavam. Os de Monica, com certeza, não.
— Dizem que a Bruxa Silenciosa é a única no mundo inteiro capaz de usar magia sem encantamento! Magia sempre precisa de encantamento, né? Mas não a Bruxa Silenciosa! Mesmo sem isso, ela consegue usar magias poderosas tipo bum, bum, bum!
Monica levou uma das mãos ao estômago em silêncio. Doía como se estivesse sendo espremido num torno. Apesar da manhã agradável de fim de verão, suor brotava por todo o seu corpo.
— E-eu, hum, e-entendo… — gaguejou Monica.
Annie apoiou as mãos nas bochechas como se estivesse encantada e disse:
— Ah, eu queria conhecer uma Sábia de verdade um dia! Só uma vez!
Mesmo deixando os Sete Sábios de lado, as pessoas por ali raramente viam até mesmo magos de nível intermediário ou inferior. Provavelmente era por isso que Annie os achava tão fascinantes.
Ainda segurando o estômago dolorido, Monica tirou algumas moedas de prata de uma bolsa de couro sobre o armário. Aquilo cobriria a comida entregue e também a gorjeta de Annie.
— A-aqui… — murmurou, colocando as moedas de prata nas mãos de Annie e fechando os dedos da menina ao redor delas. — Obrigada, hum, por sempre fazer isso.
Annie contou as moedas e inclinou a cabeça.
— Eu pergunto isso toda vez, mas tudo bem mesmo eu receber tanto? É quase o dobro do valor da comida.
— V-você trouxe tudo até aqui, então, hum… pode, bem, ficar com o resto como mesada.
Qualquer criança normal teria pulado de alegria e guardado as moedas no bolso, mas Annie era esperta. Sabia que a recompensa ultrapassava em muito o trabalho que fizera, e olhou para Monica com curiosidade.
— Ei, Monica, com o que você trabalha?
— Eu, hum… cálculos?
— Você é professora de matemática?
— Acho que… algo… desse tipo. Sim…
Os documentos reunidos naquela casa não tinham nenhum tema realmente unificador. Além de órbitas estelares e distribuições de fertilizantes, incluíam totais populacionais, receitas fiscais, variações em vendas de produtos e vários outros papéis cobertos de números. Estavam espalhados pelo chão numa mistura que, à primeira vista, parecia caos, mas que obedecia a uma ordem e a uma lógica que só Monica conseguia acompanhar.
Annie pareceu razoavelmente satisfeita com a explicação de professora de matemática.
— Hm. Então isso quer dizer que a pessoa que veio à nossa vila ontem também deve ser professora de matemática.
— …Hã?
— Ele disse que era seu colega e que queria visitá-la, então eu ensinei o caminho. Ele deve chegar logo.
Um colega.
Essa única palavra bastou para fazer a cor desaparecer do rosto de Monica.
Tremendo violentamente dentro do manto largo, ela gaguejou uma pergunta:
— E-essa, essa pessoa, hum, como, er, que tipo de, hum, pessoa… era?
— Era eu.
A voz clara e ressonante veio de trás de Monica.
Um guincho assustado escapou de sua garganta. Com movimentos rígidos, ela se virou. Encostado à porta, sorrindo, estava um homem bonito de cabelos castanhos lustrosos presos em tranças. Bem ao lado dele havia uma bela mulher loira usando uniforme de criada.
O homem vestia um esplêndido fraque, trazia um monóculo no olho e segurava uma bengala. Era, sem dúvida, um cavalheiro refinado e sofisticado. Acima de tudo, suas feições delicadas, vagamente femininas, eram tão atraentes que a maioria das garotas ficaria fascinada à primeira vista.
Monica, porém, encarou-o de olhos arregalados, apavorada, lutando desesperadamente para conter um grito.
— L-L-L-L-L-L-Loui—Louis…?
— Eu agradeceria se não transformasse meu nome em L-L-L-Loui-Louis. Fica um pouco ridículo, não acha?
— Ah! M-me d-desculpe…
Ela gaguejou, à beira das lágrimas.
Sem sequer lançar um olhar na direção de Monica, o homem caminhou direto até Annie e sorriu. Então tomou a mão da menina e colocou um doce nela.
— Obrigado por me mostrar o caminho, jovem senhorita.
— De nada.
Annie sorriu e correspondeu à cortesia do belo visitante, depois guardou o doce no bolso.
— Bom — disse ela —, não quero atrapalhar o trabalho de vocês, então já vou indo. Tchau, Monica. Até o mês que vem!
A garota acenou e deixou a casinha, adotando um andar mais gracioso que o habitual. Enquanto ouvia, desolada, o barulho da carroça se afastando, Monica ergueu os olhos lacrimejantes para o homem diante dela.
O fraque e a bengala eram disfarces. Normalmente, ele usava um manto bordado em ouro e carregava um cajado magnífico, pois era um mago. A bela jovem em uniforme de criada que aguardava atrás dele também não era humana, mas um espírito que firmara contrato com ele.
— É, hum, bom revê-lo… senhor Louis — disse Monica, com a voz trêmula.
Ele levou a mão ao peito e fez uma reverência elegante.
— Sim, faz algum tempo, não é, Lady Monica Everett? Ou devo dizer, a Bruxa Silenciosa dos Sete Sábios?
Artes mágicas é o termo usado para se referir ao uso de poder mágico, ou mana, para provocar milagres. Mais especificamente, trata-se de uma prática em que alguém entoa um encantamento para tecer uma fórmula mágica e canalizar sua mana.
Raças excelentes no uso de mana, como os espíritos, não precisam de fórmulas mágicas nem de encantamentos. Humanos, porém, são incapazes de controlar mana sem o auxílio de um encantamento. Podem usar uma técnica chamada encantamento acelerado para encurtá-lo, mas ainda assim levam vários segundos.
No entanto, uma jovem genial tornara possível o impossível.
Seu nome era Monica Everett e, apesar de sua natureza extremamente tímida, de sua dificuldade para falar e de seu atual estado de eremita das montanhas, ela ocupava o ápice da hierarquia dos magos de Ridill. Era uma integrante dos Sete Sábios — a Bruxa Silenciosa.
Monica não conseguia usar todas as fórmulas mágicas existentes sem entoar encantamento, mas dominava cerca de oitenta por cento delas.
A maior fraqueza de um mago era ficar indefeso enquanto entoava o encantamento. Obviamente, num campo de batalha, esse intervalo podia significar a diferença entre vida e morte. Embora alguns altos magos conseguissem dobrar a velocidade de suas conjurações com encantamento acelerado, Monica era a única pessoa no mundo que não precisava de tempo algum.
E foi por isso que, dois anos antes, aos tenros quatorze anos, ela fora escolhida como integrante dos Sete Sábios.
A história de como essa jovem genial adquiriu uma habilidade tão impressionante era muito simples.
Ela sofria de timidez extrema e ansiedade social, ambas fortes o bastante para impedi-la de falar com clareza perto de outras pessoas.
Sua reação diante de Annie ainda era relativamente leve. Com alguém que nunca conhecera ou com alguém cuja personalidade entrasse em conflito com a sua, ela ficava paralisada demais para dizer qualquer coisa. Na pior das hipóteses, vomitava ou até desmaiava. Isso, obviamente, era um obstáculo para entoar encantamentos.
Alguns anos antes, Monica frequentava uma instituição que formava novos magos. Mas, incapaz de entoar encantamentos durante os exames práticos, falhara e quase fora reprovada por completo. Foi então que começou a pensar. Com os examinadores por perto, ficava nervosa demais para entoar encantamentos. Logo, a solução era usar magia sem encantamento.
Normalmente, uma pessoa teria dedicado seus esforços a superar a timidez ou a ansiedade social. A ideia de Monica seguiu numa direção inteiramente inesperada. E, o mais assustador de tudo, seus talentos floresceram a partir daí.
Foi assim que Monica, por uma razão absolutamente nada comovente, dominou a arte da magia sem encantamento. Dali em diante, seu caminho até as fileiras dos Sete Sábios foi rápido.
Sua habilidade era, de fato, o ganho inesperado de uma tentativa original, ainda que desesperadamente sincera.
A casa de Monica nas montanhas tinha apenas duas cadeiras. Uma delas, naquele momento, estava ocupada por uma pilha de documentos. Ela quase nunca a usava. Ao ver a quantidade de papéis no monte, desistiu de levantá-los. Em vez disso, apontou o dedo.
No instante seguinte, a montanha de papéis voou e dançou pelo ar como se cada folha tivesse vontade própria, movendo-se da cadeira para a escrivaninha.
Produzir vento com artes mágicas não era particularmente difícil. No entanto, direcionar cada documento individualmente para seu respectivo lugar em outro ponto exigia um controle de mana extremamente delicado. Vê-la fazer isso como se fosse algo natural — e sem entoar um único encantamento — fez uma das sobrancelhas finas de Louis se contrair.
— Desperdiçando seus talentos como sempre, minha colega Sábia?
O homem que chamara Monica de colega era outro dos Sete Sábios. Seu nome era Louis Miller, o Mago das Barreiras. Ele completaria vinte e sete anos naquele ano, dez a mais que Monica. Ainda assim, os dois haviam se tornado Sábios na mesma época, então ele frequentemente se referia a ela como sua “colega”.
Quando não estava falando, Louis parecia um homem belo e delicado, mas também era um mago de combate, dono do segundo maior número de dragões abatidos sozinho em toda a história. Já servira como líder do Corpo de Magia e era temido e respeitado por seus membros por sua astúcia, ou algo do tipo.
O que será que o senhor Louis quer…? A-ai, não, será que ele vai me mandar matar dragões de novo?
De todo modo, ele era assustador quando ficava irritado. Por isso, Monica, tremendo o tempo todo, gesticulou para que ele se sentasse no assento recém-liberado.
Louis se sentou e então olhou para a criada que aguardava atrás dele.
— Ryn, uma barreira acústica, por favor.
— Imediatamente, senhor.
A criada chamada Ryn assentiu, e todos os sons da região ao redor desapareceram de uma vez. O interior e o exterior da casa foram separados, bloqueando até o som do vento e o canto dos pássaros.
Interrompendo seu cochilo fingido na prateleira, Nero estremeceu os bigodes com desconforto, e seus olhos dourados encararam a mulher em uniforme de criada.
Ela era uma beleza alta e esguia. Contudo, embora tivesse um rosto bonito, não exibia expressão alguma. Isso a fazia parecer um pouco com uma boneca.
O motivo pelo qual conseguira erguer uma barreira sem encantamento era que ela não era humana, e sim um espírito de alto nível. Apenas cerca de dez magos em todo o reino podiam dizer que tinham um espírito de alto nível como assistente.
— Vou direto ao assunto. Vim hoje pedir um favor a você.
— U-um… favor…? — perguntou Monica, sem tentar esconder a cautela.
Louis ofereceu um sorriso gracioso e apoiou o queixo nas mãos enluvadas. Até seus menores gestos eram impecáveis.
— Sim. No mês passado, recebi ordens seladas de Sua Majestade, determinando que eu servisse como guarda-costas do segundo príncipe.
— …Hã?
Os olhos de Monica se arregalaram.
Aquele reino tinha três príncipes, cada um nascido de uma mãe diferente: o príncipe Lionel, que completaria vinte e sete anos naquele ano, o príncipe Felix, que completaria dezoito, e o príncipe Albert, que completaria quatorze. Entre os nobres do reino, as opiniões se dividiam quanto a qual deles herdaria o trono.
Monica não tinha interesse nesse tipo de disputa de poder, então tudo que sabia sobre o assunto vinha de boatos. Ao que parecia, as facções do primeiro e do segundo príncipe tinham tamanhos semelhantes, enquanto a do terceiro príncipe estava em certa desvantagem.
Essas facções se estendiam também aos Sete Sábios. Louis Miller, o Mago das Barreiras, era um representante do grupo do primeiro príncipe.
Por que Louis receberia ordens para proteger o segundo príncipe? Monica franziu a testa diante daquela contradição.
— H-hum, senhor Louis… O senhor é, hum, da facção do primeiro príncipe, não é?
— Sim. Tenho minhas próprias ideias sobre o motivo de Sua Majestade ter me ordenado proteger o segundo príncipe, mas seria desrespeitoso de minha parte especular sobre seus pensamentos. O importante é que ele me ordenou cumprir a missão sem que o segundo príncipe percebesse.
— …Sem, hum, o segundo príncipe… perceber?
Não era preciso dizer que proteger alguém sem alertá-lo era incrivelmente difícil. E por que o rei ordenaria a Louis, apoiador do primeiro príncipe, que protegesse o segundo? Por que aquilo precisava ser mantido em segredo dele?
Enquanto Monica mergulhava em confusão, Louis continuou a explicar, em tom desapegado.
— Como eu disse, Sua Alteza Real Felix atualmente frequenta um internato de elite chamado Academia Serendia. Se devo protegê-lo sem chamar sua atenção… bem, a medida mais adequada seria me infiltrar na academia.
Louis, infiltrado numa escola? Para ser sincera, Monica não conseguia entender aquilo. O Mago das Barreiras, inclusive sua aparência, era famoso demais. Sem falar que sua beleza chamaria atenção em qualquer multidão. Em suma, ele era particularmente inadequado para infiltração.
Louis parecia perceber isso por conta própria.
— Eu jamais conseguiria, é claro — disse ele sem rodeios. — A academia está sob o patrocínio direto do Duque Clockford, líder da facção do segundo príncipe. Eu não conseguiria me infiltrar lá.
Como avô materno do segundo príncipe, o Duque Clockford possuía uma das maiores autoridades do reino. E, francamente, ele e Louis eram como água e óleo. Era improvável que o duque cooperasse com Louis naquela missão secreta de guarda-costas.
— S-se o senhor não consegue entrar na academia… então, hum, como vai protegê-lo…?
— Foi por isso que criei este item mágico.
Louis tirou do bolso interno um pequeno objeto embrulhado e o colocou sobre a escrivaninha. Dentro do embrulho havia um broche quebrado. Uma grande rachadura atravessava o rubi considerável incrustado no centro, e os delicados fechos de metal estavam arruinados.
Ele removeu o rubi para que Monica pudesse vê-lo. Tanto o rubi rachado quanto o encaixe exposto estavam gravados com fórmulas mágicas. Um único olhar bastou para Monica compreender sua função básica.
— …U-uma barreira composta? Detecção de ameaça, uma barreira físico-mágica de curto alcance e uma função de rastreamento e alerta…?
— Tudo isso com um único olhar. Mas eu não esperava menos. Sim. Criei este item mágico com extremo cuidado para proteger o príncipe.
Itens mágicos eram ferramentas feitas com joias especialmente ajustadas e materiais similares, imbuídos de mana para conter uma fórmula mágica. Eram muito convenientes, pois concediam seus benefícios até a pessoas incapazes de usar artes mágicas. Ainda assim, eram artigos de luxo extravagantes, possuídos apenas por um punhado dos nobres mais poderosos.
E, se aquele fora criado por um dos Sete Sábios, os maiores magos do reino, devia ser inestimável. Provavelmente valeria ao menos duas ou três casas na capital real.
Louis ergueu o rubi rachado contra a luz que entrava pela janela.
— Este é um de um par de broches, um de rubi e outro de safira. Quem possui o rubi sabe a localização de quem possui a safira. Se o portador da safira sofrer algum tipo de ataque, isso aciona uma barreira defensiva. Quando isso acontece, o rubi brilha em resposta.
Monica olhou outra vez para a fórmula mágica embutida ali. Permaneceu em silêncio por alguns instantes. Então, nervosa, perguntou a Louis:
— H-hum, então isso significa que… ele serve mais para vigiar o segundo príncipe… do que para protegê-lo?
Louis sorriu com naturalidade, como se não tivesse motivo algum para se sentir culpado.
— É natural que um guarda-costas precise saber o que a pessoa protegida está fazendo, não acha?
— M-mas ele não ficaria bravo se descobrisse…?
— Você parece um pouco honesta demais, minha colega Sábia… E, por isso, ofereço a você este antigo provérbio.
Louis levou uma mão ao peito e falou com clareza, como um clérigo recitando uma escritura.
— Tudo é permitido, desde que ninguém descubra.
— …
É simples assim mesmo? Monica não pôde deixar de se perguntar. Ainda assim, seria difícil ler e compreender uma fórmula embutida num item mágico, especialmente uma extremamente complicada, feita por Louis. Nem mesmo magos de alto nível conseguiriam decifrá-la com facilidade.
— Pedi a Sua Majestade que entregasse o broche ao príncipe Felix. Ele deveria manter em segredo o fato de ser um item mágico criado por mim e fingir que era um simples presente de pai para filho.
Enquanto o segundo príncipe mantivesse o broche consigo, Louis poderia rastrear constantemente seus movimentos e reagir a qualquer emergência. Além disso, o Duque Clockford administrava a Academia Serendia com grande rigor. Qualquer vilão que almejasse a vida do príncipe teria dificuldade para se infiltrar ali, então havia pouca chance de que algo acontecesse… Ou assim Louis pensara.
— Infelizmente, apesar de eu ter trabalhado nesses broches por uma semana sem descanso, parece que aquele que Sua Majestade entregou ao príncipe Felix quebrou logo no dia seguinte. Uma semana inteira sem pausas, e bastou um dia… Quando vi o rubi rachar, achei hilário. Simplesmente não consegui conter o riso. Ha-ha-ha.
A risada de Louis era assustadoramente monótona, e seus olhos não sorriam nem um pouco. Aquilo não tinha graça alguma. Se o rubi de Louis havia rachado, isso significava que algum tipo de perigo atingira o segundo príncipe.
— E-então… o segundo príncipe… e-está bem?
— Bem, quando o item quebrou, me arrastei para fora da cama, sem ter dormido direito, e corri imediatamente até a academia. E o que acha que ele me disse?
O olhar de Louis brilhou de modo estranho por trás do monóculo.
O rubi estalou na mão de Louis. Seus fragmentos escaparam por entre os dedos enluvados.
Toda aquela conversa começava a soar suspeita. Monica tinha um mau pressentimento. Um péssimo pressentimento.
Louis espalhou os fragmentos do rubi sobre a escrivaninha e então voltou para ela um sorriso que contradizia por completo a demonstração de força bruta.
— Você está começando a entender, não está?
Monica balançou a cabeça em negativa com todas as suas forças. Suas tranças parecidas com palha chicotearam de um lado para o outro.
Louis a ignorou por completo.
— Quero que você se infiltre na academia e proteja o príncipe em meu lugar.
Ele disse aquilo de maneira tão casual, como se estivesse pedindo um lenço emprestado por um instante, mas o que pedia não era nada simples.
— E-eu não consigo! P-por que o senhor iria querer que eu…?
— Sou famoso demais. Veja como sou belo. Não posso esconder tudo isto com um disfarce, posso? Você, por outro lado, quase nunca aparece nos círculos sociais, e mantém o capuz puxado sobre os olhos até durante cerimônias. Ninguém sabe como é o seu rosto. E, mais importante…
Louis fez uma pausa e abriu um sorriso belo o bastante para encantar qualquer pessoa.
— Ninguém jamais imaginaria que uma garota tão sem graça fosse uma integrante dos Sete Sábios.
…e a insultou.
Lá de cima da prateleira, Nero olhou para ela como se dissesse: Fique brava! Responda! Mas tudo que a frágil Monica conseguiu fazer foi repetir “eu não consigo” entre soluços e fungadas.
— E-eu nunca, hum, protegi ninguém antes…
— E é exatamente por isso que você é tão adequada.
— …Hã?
As palavras surpreenderam Monica o bastante para fazê-la parar de chorar.
Louis baixou o olhar com cansaço e balançou a cabeça.
— Sua Alteza Real é um rapaz extremamente perspicaz… Enviei um membro do Corpo de Magia para protegê-lo, e ele percebeu imediatamente. Ele está cercado de guarda-costas desde praticamente o nascimento, então sabe identificá-los. E é por isso que estou recorrendo a você.
Então fixou o olhar em Monica e declarou:
— …
— Acima de tudo, você pode conjurar feitiços em silêncio, sem chamar atenção. Perfeita para uma guarda-costas secreta, não diria? Não existe ninguém mais adequada para esta missão do que você.
A lógica de Louis parecia impecável, mas Monica não conseguia deixar de pensar que ele só estava tentando se vingar do príncipe por ter quebrado seu item mágico.
Vendo que Monica permanecia calada, Louis respirou fundo de modo exagerado.
— Faz cerca de dois anos desde que você e eu fomos nomeados para os Sete Sábios… E o único trabalho que você fez foi se trancar aqui e encarar papéis.
— M-mas eu fui matar aquele, hum, aquele dragão, sabe, três meses atrás…
— Eu matei dez dragões nesses três meses. Qual é o seu ponto?
Não havia uma hierarquia clara entre os Sete Sábios, mas Monica e Louis, por serem recém-chegados, tendiam a receber muitas tarefas menores. Nos últimos dois anos, Louis recebera principalmente missões de caça a dragões, enquanto Monica ficara com mais deveres administrativos. A maior parte dos documentos em sua casa estava ligada a trabalhos matemáticos que aceitara dos outros Sábios.
— Esses trabalhos que você faz são para matemáticos. Para guarda-livros. Você sabe que é uma das sete maiores magas do Reino de Ridill, não sabe? Não é lógico que existam tarefas que só você possa cumprir? Você sabe disso, não sabe? Tenho certeza de que sabe. Se não sabe, por favor, entenda. …Eu exijo.
Uma ordem. Que crueldade.
— M-mas eu só entrei para os Sete Sábios porque estava na lista de espera…
— Sua Majestade deixou a escolha de pessoal para a guarda do segundo príncipe inteiramente em minhas mãos. Em outras palavras… você não tem o direito de recusar, minha colega Sábia.
Louis agarrou seus ombros e lançou contra ela um olhar direto, afiado como lâmina. Por reflexo, Monica assentiu. Sem querer.
Ele recolheu o sorriso perigoso e soltou os ombros dela.
— Fico feliz que tenhamos nos entendido. Além disso, essas ordens vêm diretamente do próprio rei… portanto, considere a execução uma possibilidade em caso de fracasso e preste atenção.
Um calafrio percorreu Monica diante da palavra execução. Ela não queria assumir uma missão assustadora como aquela. Infelizmente, uma vez que dera a Louis um aceno de concordância, não havia escapatória. Tudo que podia fazer agora era esconder sua identidade a qualquer custo durante um ano inteiro, até a formatura do segundo príncipe, e cumprir sua missão como guarda-costas.
Enquanto ela se resignava de má vontade, Louis prosseguiu com suavidade:
— …Aham.
— Então, a esposa do antigo conde Kerbeck, enxergando na garota a imagem do falecido marido, adotou-a. A menina recebeu uma vida feliz, mimada pela antiga condessa Kerbeck.
— É uma… bela história.
A avaliação pouco sofisticada de Monica fez Louis balançar a cabeça teatralmente. Quando continuou, sua voz estava carregada de tristeza.
— Mas, um dia, a condessa, já idosa, sucumbiu a uma doença e acabou partindo deste mundo dos vivos.
— Ah, não…
— Tendo perdido sua protetora, a garota passou a ser rejeitada pelos outros membros da família do conde e recebeu pequenos afazeres como serva da nobre filha do conde. Quando essa filha ingressou na Academia Serendia, a pobre garota também foi matriculada, como sua acompanhante.
— E-eu sinto tanta pena dela…
— Pois bem. Você interpretará o papel dessa pobre garota.
Monica permaneceu em silêncio por bons dez segundos antes de abrir a boca e dizer:
— O quê?
— Essa é a história que você usará para se infiltrar em Serendia. Certifique-se de memorizá-la bem antes da matrícula.
Monica começou a suar frio. Louis acabara de lhe atribuir uma história absurda, e com total seriedade.
— Hum… — murmurou ela. — É-é tanta coisa que eu nem…
— Desde que você tenha um passado conturbado, ninguém fará muitas perguntas. Aliás, baseei sua história numa personagem deste livro.
Ryn, o espírito de alto nível em uniforme de criada que aguardava atrás de Louis, produziu um livro com movimentos suaves. O nome do autor era Dustin Gunther, um romancista que se tornara recentemente um dos favoritos de Nero. Com gestos refinados, Ryn estendeu o livro a Monica e falou:
— É um romance em que a heroína, maltratada pela filha do conde, chama a atenção de um príncipe. Com o tempo, os dois caem em um amor proibido. Os métodos sombrios e vis pelos quais a filha nobre a maltrata são descritos de maneira muito intrincada. Em minha opinião, é uma obra fascinante.
Nero ouviu a descrição de Ryn do alto da prateleira, com uma expressão de grande interesse no rosto e a cauda balançando de um lado para o outro. Aquela casa continha vários livros de Dustin Gunther, mas todos eram mais antigos. O que Ryn tinha era a obra mais recente do autor. Era natural que Nero se interessasse.
Com Monica aturdida, Ryn colocou delicadamente o livro em suas mãos.
— Eu o emprestarei a você. Espero que lhe sirva bem como referência.
Como exatamente isso deveria servir de referência? E para quê? pensou Monica, fingindo folhear as páginas. Ela passara muitas horas lendo livros sobre artes mágicas, mas não era muito familiarizada com romances populares, e o conteúdo não se fixava bem em sua mente.
— H-hum… A história que o senhor pensou, Louis… significa que vou me matricular junto com a filha do conde Kerbeck, mas…
— Sim, é claro! Já contei tudo ao conde Kerbeck e pedi a Lady Isabelle, sua única filha, que prestasse assistência.
Os olhos de Monica se arregalaram.
— C-com uma história dessas?! I-isso não vai, hum, causar problemas para a, hum, Casa Kerbeck?
Afinal, se seguissem a história de Louis, isso faria o conde Kerbeck e sua filha, Isabelle, parecerem os vilões. Monica empalideceu. Não podia obrigá-los a fazer algo assim.
Louis, contudo, estava calmo e relaxado.
— O que você sabe sobre o conde Kerbeck?
— Hã? Hum…
Monica era boa com números, mas nem tanto para lembrar nomes de pessoas e lugares. Ainda assim, o nome conde Kerbeck puxava um pouco sua memória. Ela se lembrava de tê-lo ouvido havia relativamente pouco tempo.
— Ah… Os dragões…
— Exatamente. Quando você matou o Dragão Negro de Worgan três meses atrás, foi nas terras do conde Kerbeck. Ele lhe é profundamente grato por isso. Na verdade, disse que ajudaria a Bruxa Silenciosa com qualquer coisa.
O conde Kerbeck havia preparado um banquete de agradecimento para Monica, que matara o Dragão Negro de Worgan. Contudo, Monica recusara e fugira de volta para sua cabana, então nunca conhecera o conde nem sua filha.
Monica temera que sua recusa tivesse azedado a opinião do conde a seu respeito, mas, ao que parecia, ele ficara impressionado. Interpretara aquilo como uma demonstração da profunda modéstia da Bruxa Silenciosa.
— Já entreguei a história de fachada ao conde Kerbeck e à sua nobre filha. O conde ficou mais que feliz em ajudar. “Ora, ora! Isso parece coisa de uma balada heroica, não parece?”, foi o que disse.
— M-mais que feliz…?
— E os olhos de Lady Isabelle estavam brilhando. “Vilãs estão em alta ultimamente!”, ela disse.
— E-estão…?
Aparentemente, o romance de onde Louis tirara a ideia era imensamente popular na capital. Ao que parecia, Lady Isabelle era uma grande fã e fazia viagens especiais a cada lançamento novo.
— Lady Isabelle está se esforçando muito para desenvolver sua personagem e se tornar a vilã perfeita para maltratá-la.
— …
— Em essência, é isto: você se infiltrará na academia, Lady Isabelle a maltratará, e você protegerá o segundo príncipe. O quê? Você é ótima em interpretar a criança maltratada, não é?
— …
Monica nem conseguiu responder…
…porque estava quase inconsciente.
Se Louis já havia providenciado a ajuda do conde Kerbeck naquela questão, então ele jamais tivera a intenção de deixar Monica escapar.
Mesmo depois que Louis e Ryn deixaram sua cabana, Monica permaneceu no chão, atordoada. Louis dissera que passaria ali no mesmo horário no dia seguinte e que ela deveria estar com as coisas prontas para partir. Mas, sinceramente, ela nem sabia por onde começar.
— Ei, Monica. Você está viva? Eeei!
Nero usou a pata dianteira para cutucar o pé de Monica. Normalmente, a almofadinha macia e fofa seria uma sensação reconfortante para ela, mas naquele momento ela não conseguia apreciá-la.
— O que eu faço…? E-eu não consigo proteger alguém… Eu só estava na lista de espera dos Sete Sábios…
— Você disse isso antes, né? O que quer dizer com “lista de espera”?
Nero estava confuso. Não entendia muito dos assuntos humanos. Fungando alto, Monica recordou os exames dos Sete Sábios de dois anos atrás.
— D-dois anos atrás — começou ela —, estavam escolhendo novos Sábios…
— Certo.
— …E eu… durante a entrevista, fiquei tão nervosa que comecei a hiperventilar.
— Certo.
— …Não lembro de muita coisa, mas disseram que meus olhos viraram e eu desmaiei. Eu estava espumando pela boca…
Nero estreitou os olhos e balançou a cauda.
— …E como diabos isso fez você entrar para os Sete Sábios?
— A-aconteceu que um dos Sábios da época ficou doente e precisou se aposentar… então abriu uma segunda vaga. E aí me escolheram por pena…
Ninguém lhe dissera isso, mas Monica tinha certeza de que Louis fora a única pessoa que realmente passara no exame. Ele era um mago talentoso. Ex-líder do Corpo de Magia, sustentava suas conquistas com habilidades incríveis. Monica, por outro lado, era só uma garotinha boa em cálculos, que passava o ano inteiro trancada num laboratório. Não havia comparação.
— Não acredito que ele escolheria alguém da lista de espera para ser guarda-costas de um príncipe… E-eu não consigo! Não consigo, não consigo!
Enquanto Monica pendia a cabeça e enterrava o rosto nas mãos, Nero deu tapinhas reconfortantes em seu pé.
— Se você não quer mesmo fazer isso, por que não foge?
— E-eu não posso. Porque, se eu fugir… Louis vai me perseguir até os confins da terra…
Louis Miller, o Mago das Barreiras, era um belo homem com modos de nobre. Mas também era um dos magos de combate mais poderosos do reino. Monica sabia que, sob aquelas luvas, havia mãos cobertas de calos de batalha.
— Esse sujeito é humano mesmo? Parece mais um guardião do submundo do que um dos Sete Sábios.
— Ele é quase tão assustador quanto isso!
Monica sabia que não podia fugir, mas ainda estava assustada. Enquanto fungava outra vez, Nero, com a cauda balançando, fez uma proposta.
— Nesse caso, que tal pensar pelo lado positivo, hein? Você vai proteger um príncipe. Um príncipe, Monica! Eles são muito legais, certo? Praticamente brilham. As fêmeas humanas todas adoram príncipes, não adoram?
— …Não sei.
— Os Sete Sábios precisam participar de cerimônias e essas coisas, né? Você já viu o rosto de um príncipe antes?
Monica balançou a cabeça. Com sua ansiedade social, odiava multidões. Durante cerimônias, sempre mantinha o capuz do manto puxado até cobrir os olhos e ficava quieta até tudo terminar. Nunca sequer conseguira ver direito o rosto do rei no trono.
— Ei, Monica. Acabei de pensar numa coisa.
— …Hm?
— Se você não sabe como é a aparência da pessoa que vai proteger… isso não é ruim?
— …O que eu faço…?
Ela não podia simplesmente ser honesta com Louis e dizer que não sabia como era o segundo príncipe. Sem falar que a punição por fracassar naquela missão era…
A palavra execução rodopiou por sua mente, fazendo-a cair de cara no chão e desabar em lágrimas. Nero deu tapinhas no joelho dela com a pata dianteira, tentando oferecer algum consolo. Anterior Próximo 🛒
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