A Forja de Coroas
A Forja de Coroas ficava abaixo do magma.
Não fazia sentido físico, e Garon reclamou disso por quase meia hora. Desceram por um elevador de pedra até o calor virar pressão e a pressão virar som. No fundo, encontraram uma câmara esférica suspensa dentro de rocha líquida. No centro, uma bigorna negra flutuava sobre correntes sem apoio. Acima dela, uma coroa incompleta girava lentamente: mandíbula, chifre, ouro pálido e ossos de criaturas que Kael não conhecia.
Nadir vibrou. A ponta quebrada da espada respondeu de algum lugar dentro da forja, como dente perdido chamando gengiva.
— Para reforjar a lâmina — Ulda explicou — precisamos de três coisas: metal vivo, intenção soberana e recusa.
— Recusa de quê?
— Do que a lâmina pedir quando perceber que pode voltar inteira.
Kael não gostou disso. Nadir, aparentemente, também não.
O ritual começou com Garon trabalhando com a mão esquerda, desajeitado sem a prótese. Ulda martelava por ele, seguindo instruções ríspidas. Liora mantinha luz estável apesar da dor no ombro. Mirelle segurava a espada branca pronta, não contra inimigos externos, mas contra Kael caso necessário. Korr e Sika guardavam a entrada. Tessa contava rotas de fuga que provavelmente não funcionariam.
Quando a ponta perdida de Nadir emergiu do magma, veio acompanhada por memórias da lâmina. Kael viu o primeiro Rei Demônio erguendo-a diante de exércitos. Viu monstros ajoelhando por esperança, humanos por terror. Viu a lâmina cortar pactos e coroar massacres.
Então Nadir pediu. Não com palavras. Com desejo.
Inteireza.
Para voltar completa, queria um núcleo real: o de Mirelle, santa marcada pela Chama; o de Liora, luz sem coleira; ou o do próprio Kael, fome consciente. A espada não era má. Era antiga. Pensava como ferramenta de reis antigos: grandes fins justificavam sacrifícios próximos.
Kael riu. O som saiu cansado.
— Todo artefato lendário neste mundo é péssimo em consentimento?
Ele recusou.
A forja reagiu com violência. Correntes se romperam. A coroa incompleta desceu como animal. A fome antiga gritou que poder exigia preço. Kael pegou a metade guardada do núcleo do guardião, o fragmento do ogro de neve e o amuleto de Morga. Colocou tudo sobre a bigorna.
— Este é o preço. Memória de quem morreu por escolha própria. Poder tomado pela metade. Juramento de não devorar aliados. Se não basta, continue quebrada.
Por um instante, nada aconteceu. Então Nadir aceitou.
A lâmina foi reforjada, mas não restaurada como antes. Continuou com uma linha visível de fratura, agora preenchida por metal vermelho-escuro. A ponta voltou em formato irregular, como chama congelada. Nadir jamais seria espada perfeita; seria espada lembrada. Poderia cortar intenções, juramentos falsos e, uma vez por batalha, separar um Eco de seu custo imediato. Depois disso, racharia mais se usada sem cuidado.
O preço caiu sobre Kael mesmo assim. Não memória humana. Dor física. A fratura da espada apareceu em seu antebraço direito como uma marca negra ramificada do pulso ao cotovelo. Permaneceria ali enquanto Nadir existisse.
Liora tocou a marca com cuidado.
— Você recusou nos sacrificar.
— Minha barra moral está baixa se isso surpreende.
— Não surpreende. Assusta menos.
Antes que pudessem respirar, a coroa incompleta abriu os olhos. A entidade antiga não estava apenas na fome de Kael. Estava ancorada na forja. E agora tinha caminho.
A câmara tremeu. Do magma ergueu-se a sombra do primeiro Rei Demônio: enorme, dracônica, coroada por mandíbulas, olhos vermelhos iguais aos de Kael.
— Candidato — disse a sombra. — Você confundiu recusa com virtude.
Kael ergueu Nadir imperfeita.
— E você confundiu fome com governo.
A sombra sorriu.
— Então sente-se no trono e prove a diferença.

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