Bel-Tor e os Anões sem Canção
Bel-Tor não era uma cidade. Era uma garganta aberta na montanha.
Pontes de metal cruzavam abismos iluminados por magma. Elevadores rangiam entre plataformas. Martelos gigantes batiam em ritmos que deveriam formar música, mas algo faltava. Garon explicou que cada clã anão tinha uma canção de trabalho. Bel-Tor perdera a sua quando aceitou fabricar correntes para a Igreja durante a guerra.
— Uma cidade pode enriquecer e ainda assim ficar muda — disse.
A recepção foi exatamente tão ruim quanto ele prometera. Guardas anões cercaram o grupo antes do terceiro portão. Chamaram Garon de traidor, Liora de bruxa solar, Mirelle de problema político e Kael de várias palavras que provavelmente significavam morte com ferramentas específicas.
Foram levados ao Conselho das Sete Bigornas, onde anões idosos discutiam como se cada frase precisasse vencer uma guerra antes de existir. A matriarca Ulda, irmã de Garon, presidia com um machado no colo e decepção nos olhos.
— Você volta com monstros, hereges e uma lâmina demoníaca quebrada — ela disse. — Senti falta da sua sutileza.
— Também senti sua alegria, irmã. Continua enterrada?
Kael interrompeu antes que família virasse duelo. Explicou a Lei da Fome, o trono, a Forja de Coroas. Mostrou Nadir. A lâmina quebrada fez as bigornas vibrarem. Os anões pararam de rir.
Ulda contou a verdade omitida das histórias humanas: Bel-Tor ajudara a criar o primeiro Rei Demônio, não por maldade, mas por desespero. A Lei da Fome surgira de uma ruptura no mundo, uma maré de evolução descontrolada que transformava monstros em catástrofes e humanos em caçadores santos igualmente famintos por domínio. O trono deveria conter a maré dentro de um único soberano capaz de escolher limites. Falhou. O primeiro rei devorou juramentos demais e virou a entidade que agora sussurrava em Kael.
— E vocês querem que eu sente nessa coisa?
— Eu quero explodir essa coisa — Garon disse.
— Impossível — Ulda respondeu. — Tronos não explodem. São ideias com cadeira.
O debate terminou quando agentes de Vhal infiltrados abriram os portões inferiores para espectros de neve. Mortos antigos invadiram Bel-Tor, atraídos pela energia da forja. A cidade muda precisou cantar de novo ou cair.
Kael lutou nas pontes ao lado de anões que o odiavam. Korr salvou um aprendiz preso. Sika, mancando, comandou kobolds e mineiros como se tivesse nascido irritada com todos igualmente. Liora e Mirelle combinaram luzes: uma quente, outra branca, criando auroras dentro da montanha.
Garon enfrentou o agente principal de Vhal, um velho conhecido que usava uma versão roubada de seu braço mecânico. O duelo foi brutal e pessoal. No fim, Garon venceu arrancando a própria prótese para sobrecarregar a do inimigo. Seu braço mecânico ficou destruído, reduzido a metal morto. Ele sobreviveu, mas perdeu a ferramenta que definira sua segunda vida.
Ulda viu o irmão sangrando e, pela primeira vez, não falou como juíza.
— Idiota.
— Hereditário.
Bel-Tor não perdoou Kael. Mas concedeu acesso à Forja de Coroas. Em troca, exigiu uma promessa: se Kael perdesse para o trono, seus companheiros deveriam matá-lo antes que descesse a montanha.
Kael aceitou.
Liora não.
— Eu prometo tentar salvá-lo primeiro — disse. — Depois discutimos assassinato.
Ulda observou a garota humana, a santa caída, os goblins, a kobold e o anão sem braço mecânico.
— Grupo terrível para fim do mundo.
Kael olhou para eles e sorriu.
— É o que temos.
— Então talvez o mundo mereça perder um pouco.

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