Neve sobre Sangue Verde
As Montanhas de Nox ensinavam humildade com frio.
No primeiro dia, Korr declarou que neve era areia branca covarde. No segundo, tentou brigar com o vento. No terceiro, parou de fazer piadas porque os dentes batiam demais. Kael, mesmo com corpo evoluído, sentia o frio entrando pelas cicatrizes: o elo branco no pulso esquerdo, a linha no flanco, cortes recentes da catedral.
Liora caminhava devagar, poupando o ombro ferido. Mirelle ofereceu cura três vezes. Liora recusou duas. Aceitou na terceira sem olhar para ela. Progresso, Kael decidiu.
A trilha passava por vilas humanas pobres, lugares que nunca tinham visto um nobre, mas pagavam impostos ao Baronato mesmo assim. Kael esperava pedras. Recebeu portas fechadas, olhares aterrorizados e, de uma menina pequena, um pedaço de pão deixado sobre um muro antes que a mãe a puxasse para dentro.
— Eles têm medo — Tessa disse.
— Eu também teria.
— Você tem?
Kael pensou na fome, no trono, no reflexo coroado.
— Todo dia.
Na passagem de Umbra Alta, foram atacados por ogros de neve. Criaturas enormes, pele azulada, máscaras feitas de crânios de alce. Não eram animais; usavam tática. Primeiro derrubaram rochas para separar o grupo. Depois miraram Liora, identificando a conjuradora ferida.
Kael e Mirelle lutaram lado a lado pela primeira vez. A espada branca dela cortava músculos congelados. Nadir cortava a coragem dos ogros que tentavam cercá-los. Korr subiu nas costas de um inimigo e enfiou adagas nas orelhas. Sika salvou Liora de uma lança de osso, recebendo um corte profundo na coxa direita. A ferida a faria mancar por semanas, e Sika odiaria cada passo.
O líder ogro possuía um núcleo azul-prata. A fome de Kael acordou com violência. Eco de resistência ao frio. Força. Talvez algo mais. Ele estava exausto, o grupo ferido, a montanha ainda longa. Todos sabiam o que aquele núcleo poderia significar.
Kael devorou apenas um fragmento.
A dor foi menor, o poder também. Aprendeu uma regra nova: consumo parcial concedia ecos incompletos e custos menores. Ganhou Pulso Invernal, capacidade de reduzir dor e frio por curtos períodos. Perdeu uma memória simples: o nome de um jogo que gostava em sua vida humana. Sentiu luto mesmo sem lembrar o objeto do luto.
— Você encontrou limite — Liora disse naquela noite, enquanto costurava a perna de Sika.
— Encontrei negociação. Limite é quando eu parar antes de doer.
Garon, examinando o fragmento restante, confirmou que a Forja de Coroas poderia estabilizar ecos e talvez impedir perdas de memória futuras. Talvez. Ele disse a palavra como quem oferece faca pelo cabo e pela lâmina ao mesmo tempo.
Na noite seguinte, Kael sonhou com a mãe cujo rosto e voz perdera. No sonho, ela estava de costas, preparando jantar em uma cozinha sem detalhes. Ele chamou, mas não sabia que som usar. A fome antiga observava do canto, paciente.
Quando acordou, Liora estava sentada perto da fogueira, também desperta.
— Pesadelo? — ela perguntou.
— Buraco.
Ela não pediu explicação. Apenas encostou o ombro bom no dele. Por alguns minutos, Kael não foi rei, monstro ou candidato a trono. Foi apenas alguém sentado no frio, compartilhando silêncio com outra pessoa quebrada.
Acima deles, as Montanhas de Nox escondiam uma luz vermelha sob a neve. A forja estava acordada.

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