Cinzas de Saint-Orvel
Depois da batalha, ninguém sabia o que fazer com prisioneiros.
Para os humanos capturados, monstros deveriam devorá-los. Para os goblins, humanos capturados eram oportunidade rara demais para desperdiçar. Para Kael, eram pessoas armadas que, horas antes, tentavam matá-los. Misericórdia parecia nobre até exigir logística.
— Não podemos alimentar inimigos enquanto nossas crianças comem raiz — Sika disse.
— Se matarmos rendidos, viramos exatamente a história que contam sobre nós — Liora respondeu, o braço direito preso em tipoia. O rosto dela estava pálido, mas a voz continuava firme.
— Histórias não seguram espada.
— Seguram exércitos.
Kael ouviu todos. Era uma das coisas que odiava em liderar: decisões simples só existiam para quem não precisava executá-las. No fim, escolheu libertar camponeses recrutados à força, manter oficiais como reféns e oferecer aos mercenários uma troca: trabalhar reconstruindo defesas por comida e liberdade posterior. Alguns cuspiram. Outros aceitaram rápido demais.
Mirelle permaneceu no acampamento, desarmada por escolha. Isso enfureceu metade dos monstros e confundiu a outra metade. A santa caída ajudava Liora a tratar feridos, embora cada toque de sua luz fizesse goblins recuarem.
— Eles me odeiam — Mirelle disse.
— Sim — Liora respondeu.
— Você poderia fingir consolo.
— Poderia. Estou economizando mentira.
Kael viu as duas conversarem sob um vitral quebrado e percebeu que reconciliação não era abraço. Às vezes era apenas continuar na mesma sala sem sacar uma arma.
Na terceira noite, Korr apareceu com uma caixa roubada do acampamento inimigo. Dentro havia cartas de soldados. Pedidos de desculpa. Desenhos infantis. Promessas de voltar. Os goblins ficaram em silêncio ao ver que inimigos também possuíam pessoas esperando por eles. Aquilo não perdoava ataques. Mas complicava o ódio, e ódio complicado era menos obediente.
Kael guardou as cartas para devolver aos prisioneiros. Sika o chamou de tolo. Depois levou comida extra para um soldado que chorava escondido.
A paz durou pouco.
Garon decifrou a metade do núcleo do guardião e descobriu coordenadas para uma fortaleza antiga sob as Montanhas de Nox. Segundo as inscrições, ali ficava a Forja de Coroas, onde o primeiro Rei Demônio tentara transformar a Lei da Fome em juramento. Se Nadir seria reforjada, seria lá. Se o trono acordava, respostas também.
Kael olhou para Liora.
— Você não vem.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Perdão?
— Seu ombro...
— Dói. Não vota.
— Liora.
— Kael. Você está prestes a subir montanhas para conversar com uma forja demoníaca usando uma espada quebrada e uma coroa imaginária. Alguém precisa garantir que a ideia continue soando idiota em voz alta.
Korr levantou a mão.
— Eu faço isso.
— Você acha tudo divertido. Não conta.
No fim, o grupo partiu com Kael, Liora, Korr, Sika, Garon, Tessa e Mirelle. Varr ficou liderando o acampamento junto de anciãos kobolds. Ele não gostou, mas Kael confiava nele justamente porque Varr conhecia medo e não fingia o contrário.
Ao deixar Saint-Orvel, Kael olhou para a catedral semide destruída. A estrutura continuaria arruinada. Não viraria símbolo bonito. Seria abrigo, hospital, depósito, memorial. Coisas úteis para vivos e mortos.
A fome antiga permaneceu quieta durante a viagem. Isso preocupava mais do que seus sussurros.

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