A Catedral sem Deus
Kael escolheu o campo de batalha dentro da catedral abandonada de Saint-Orvel.
Ela ficava na borda do pântano, meio afundada, vitrais quebrados refletindo água negra. A Igreja a deixara ruir depois que um milagre falhara ali cem anos antes. Para Liora, era uma ferida histórica. Para Garon, era arquitetura desperdiçada. Para Kael, era terreno. Corredores estreitos para reduzir números. Torres instáveis para derrubar sobre formações. Vitrais suficientes para Liora usar luz sem depender da Chama Clara.
O exército veio ao amanhecer: mercenários de Vhal, cavaleiros da Igreja e homens comuns convencidos de que monstros no pântano ameaçavam suas casas. Essa última parte pesou em Kael. Era mais fácil enfrentar vilões. O mundo, irritantemente, preferia mandar gente assustada.
A batalha começou com silêncio. Depois sinos quebrados caíram da torre, soltos por kobolds durante a noite, esmagando a primeira linha de escudos. Korr liderou goblins pelos corredores laterais, atacando joelhos e desaparecendo. Sika comandou armadilhas de vidro. Tessa levou kobolds por túneis alagados para cortar suprimentos. Garon transformou o órgão da catedral em uma máquina de pressão que lançava estacas de banco como balistas improvisadas.
— Arte sacra aplicada — ele gritou, orgulhoso.
Kael lutou no nave central. Nadir quebrada dançava em sua mão, cortando vontade de avançar, medo de recuar, orgulho de oficiais. Ele não matava quando podia incapacitar. Mas guerra não obedecia pureza. Um cavaleiro perfurou um goblin adolescente que Kael nem sabia o nome. Korr matou o cavaleiro pelas costas e vomitou depois.
Então o capitão de Vhal apareceu com uma besta pesada apontada para Liora. Kael sentiu o mecanismo pelo Faro de Ossos tarde demais. O disparo atravessou o ar. Liora virou, mas a seta rasgou seu ombro direito e a prendeu a uma coluna.
A fome tomou Kael pela garganta.
Por um instante, tudo ficou vermelho. Ele avançou como coisa sem nome. Quebrou a besta, quebrou o braço do capitão, quebrou o chão com o corpo dele. O núcleo humano não pulsava como o de monstros, mas a fome tentou encontrá-lo mesmo assim.
Liora chamou seu nome. Não alto. Não dramaticamente. Apenas o bastante.
Kael parou com a mão a centímetros da boca do capitão. Viu terror nos olhos do homem. Viu a si mesmo refletido: cabelo prateado sujo de sangue, olhos vermelhos, chifre negro, cicatriz branca no pulso esquerdo brilhando.
— Não — Kael disse para a fome. — Humanos não são comida.
A frase custou dor. A fome rasgou por dentro, punindo desobediência. Kael caiu de joelhos. O capitão fugiu arrastando o braço inútil.
No transe da dor, Kael viu a entidade atrás da Lei da Fome: um rosto imenso, dracônico e humano ao mesmo tempo, coroado por mandíbulas. O velho Rei. Ou o que restara dele.
Fraco, sussurrou a voz. Reis comem exceções.
— Então reis antigos eram idiotas.
A resposta fez a visão rachar. Kael voltou ao som da batalha. Liora ainda estava presa. Ele arrancou a seta com cuidado enquanto ela mordia o próprio manto para não gritar. O ombro direito dela sangrava muito, mas o braço continuava inteiro. Garon aplicou pressão e praguejou com competência.
A batalha terminou quando Mirelle entrou na catedral. Todos esperaram que ela atacasse Kael pelas costas. Em vez disso, ela ergueu a espada branca contra o sacerdote que ordenava queimar os feridos.
— Basta — disse a santa.
O sacerdote a chamou de traidora. Mirelle não discutiu. Apenas cortou o símbolo da Chama Clara do próprio manto.
A retirada inimiga não foi vitória limpa. Havia mortos no chão. O ombro de Liora ficaria com cicatriz e dor em dias frios. Korr perdera parte da orelha esquerda. A nave da catedral desabara em três pontos. Saint-Orvel jamais seria templo de novo.
Mas o pântano permaneceu de pé. E, pela primeira vez, humanos comuns viram monstros pouparem prisioneiros.
Na parede atrás do altar, sob poeira sagrada, Kael encontrou outra inscrição demoníaca.
O trono desperta quando o rei recusa a primeira refeição.
Ele não soube se aquilo era bênção ou ameaça.


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