A Santa de Lâmina Branca
A Igreja enviou Santa Mirelle para matar Kael.
Ela chegou ao Pântano de Vidro sem exército, sem fanfarra e sem ódio aparente. Usava armadura branca sob um manto simples. Tinha vinte e seis anos, cabelo preto preso em trança e olhos de alguém que dormia pouco por escolha moral. A espada em sua cintura era fina, quase delicada. Liora a reconheceu antes que todos.
— Minha mentora — sussurrou.
Mirelle parou do outro lado do canal vítreo, onde kobolds apontavam lanças.
— Liora Senn — disse. — Você está acusada de heresia, colaboração monstruosa e roubo de propriedade sagrada.
— A propriedade sagrada era eu?
— Você sabe que eu nunca usei essa palavra.
— Mas serviu a quem usa.
A conversa doeu mais que flechas. Kael ficou em silêncio, percebendo que algumas lutas começavam anos antes do primeiro golpe. Mirelle não parecia cruel. Isso a tornava perigosa. Crueldade era fácil de odiar. Convicção triste era uma muralha.
Ela ofereceu termos: entregariam Kael, os goblins seriam reassentados como mão de obra controlada, Liora receberia julgamento privado. Ninguém morreria naquele dia.
Tessa cuspiu no chão. Korr precisou ser segurado. Kael, porém, perguntou:
— E depois?
Mirelle olhou para ele pela primeira vez. Não viu Grin. Não viu Kael. Viu categoria.
— Depois o mundo fica mais seguro.
— Para quem?
A santa desembainhou a espada. A lâmina era tão branca que parecia ausência de cor.
— Para todos que ainda podem ser salvos.
O duelo ocorreu sobre uma ponte natural de vidro. Kael proibiu interferência. Mirelle também. Ninguém gostou, o que talvez provasse que era a decisão certa.
Mirelle lutava como oração afiada. Cada passo fechava uma possibilidade. Cada golpe vinha no ângulo exato para punir instinto monstruoso. Quando Kael avançava com força, ela desviava e cortava tendões superficiais. Quando recuava, ela usava luz para reduzir espaço. Nadir conseguia cortar sua intenção, mas Mirelle mudava de intenção antes do toque. Era como duelar contra alguém que confessava cada pecado antes de cometê-lo e, por isso, não deixava brecha.
Kael sangrou primeiro. Depois de novo. A cicatriz no flanco abriu. O chifre direito doeu quando a lâmina branca passou perto, como se a arma quisesse arrancá-lo do mundo.
— Você protege monstros — Mirelle disse entre golpes — porque acha que isso o torna diferente dos que os caçam. Mas quantos núcleos devorou? Quantas memórias perdeu? Quanto de você resta?
Kael quase respondeu com raiva. Em vez disso, respirou.
— Menos do que eu queria. Mais do que você espera.
Ele parou de tentar vencê-la com força. Usou o que aprendera com Korr: velocidade feia. Com Sika: ataques que pareciam covardia até funcionarem. Com Liora: luz precisa de âncora. Kael golpeou não Mirelle, mas os reflexos sob seus pés, quebrando o vidro fino da ponte. A santa perdeu equilíbrio por meio segundo. Nadir tocou sua guarda. Não cortou metal. Cortou certeza.
Mirelle hesitou.
Kael poderia matá-la. Não matou. Encostou a lâmina quebrada em seu pescoço e recuou.
— Volte para sua Igreja — disse. — Conte que poderia ter morrido por misericórdia de um monstro. Veja o que eles fazem com essa informação.
Mirelle olhou para Liora. Algo antigo e triste passou entre as duas.
— Eles virão com exército.
— Eu sei.
— Então fuja.
Kael apontou para o acampamento atrás dele. Crianças goblins, kobolds, feridos, gente que não tinha para onde fugir.
— Não mais.
Mirelle partiu ao entardecer. Liora chorou apenas quando a santa desapareceu. Kael ficou ao lado dela sem tocar. Algumas dores pediam presença, não solução.
Na manhã seguinte, batedores trouxeram notícia: Vhal e a Igreja reuniam tropas. O pântano seria purificado pelo fogo.
Kael olhou para Nadir quebrada. Depois para as pessoas que começavam a chamá-lo de líder mesmo quando ele mandava parar.
— Então construiremos uma guerra onde eles esperam encontrar uma caça.

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