A Masmorra sob a Raiz Morta
A primeira masmorra que Kael conquistou não tinha tesouro no final. Tinha uma pergunta.
Ela ficava sob a maior árvore vitrificada do pântano, onde raízes transparentes desciam como presas. Tessa contou que kobolds evitavam o lugar porque monstros entravam e saíam diferentes. Garon ouviu isso e imediatamente quis entrar.
— Cientificamente, é uma péssima ideia ignorar lugares que transformam monstros — disse o anão.
— Moralmente, também é uma péssima ideia entrar — Liora retrucou.
Kael entrou mesmo assim, levando Liora, Korr, Sika e Garon. Não por curiosidade. O mapa roubado em Vhal indicava que a Igreja procurava a mesma masmorra. Se havia algo ali capaz de explicar a Lei da Fome, Kael não queria que sacerdotes o encontrassem primeiro.
A masmorra era um laboratório antigo. Não humano, não anão. Corredores de pedra branca atravessavam câmaras circulares onde ossos de monstros pendiam em fios de metal. Havia inscrições na língua demoníaca que Kael não sabia ler, mas sentia. Cada símbolo provocava fome ou náusea.
No centro, encontraram um espelho negro. Não refletia corpos. Refletia possibilidades. Korr viu a si mesmo como chefe de uma tribo enorme e ficou vermelho de orgulho. Sika viu uma versão sua sem faca, segurando uma criança no colo, e virou o rosto rápido demais. Garon viu o braço natural que perdera e ficou quieto pela primeira vez.
Kael viu um trono.
Sobre ele, uma criatura de cabelo prateado e olhos vermelhos usava uma coroa feita de mandíbulas. Atrás, cidades queimavam. Aos pés, humanos e monstros ajoelhavam sem diferença, porque todos estavam igualmente quebrados.
— Não sou eu — Kael disse.
O reflexo sorriu.
Ainda.
Liora tocou seu ombro e o espelho rachou. Do vidro saiu um guardião sem pele, feito de músculos escuros e placas ósseas, segurando uma lança com ponta de cristal. Ele não rugiu. Falou.
— Candidato detectado. Fome desperta. Julgamento iniciado.
A luta exigiu tudo que tinham aprendido. Korr atacava tendões. Sika apagava lanternas para confundir reflexos. Liora criava âncoras de luz nos fios metálicos, prendendo movimentos por frações de segundo. Garon usava o braço mecânico para arrancar placas do chão e erguer coberturas improvisadas.
Kael descobriu uma limitação de Nadir: a espada quebrada não cortava criaturas sem intenção própria. O guardião era programa, juramento antigo. A lâmina atravessava seu corpo sem efeito. Kael precisou lutar com estratégia, não símbolo. Usou a carapaça para receber um golpe, deixou a lança atravessar seu flanco esquerdo e prendeu a arma com o próprio corpo. A dor quase o derrubou. A cicatriz ficaria ali, uma linha funda abaixo das costelas, lembrando-o de que coragem muitas vezes era burrice com propósito.
Liora gritou seu nome. Korr subiu pelas costas do guardião. Sika cravou a faca na junta do pescoço. Garon sobrecarregou um fio de metal. Kael arrancou o núcleo roxo exposto no peito da criatura.
A fome mandou devorar.
Ele não obedeceu imediatamente. Observou o núcleo. Guardião. Julgamento. Memória. Talvez aquilo não fosse alimento, mas chave.
— Se eu comer isso, posso entender? — perguntou.
— Pode se perder — Liora respondeu.
Kael sorriu sem humor.
— Essa parte já vem inclusa.
Ele devorou metade do núcleo e guardou a outra metade em um frasco de Garon. O Eco adquirido não deu força. Deu linguagem. Símbolos demoníacos se reorganizaram em sua mente. O custo veio em seguida: ele esqueceu o rosto do primeiro amigo humano que tivera. Não o nome. Não as histórias. Apenas o rosto. Um buraco sem contorno.
Na parede final, Kael leu a pergunta da masmorra.
Quando a fome do mundo se erguer, você será boca ou corrente?
Ele saiu mancando, com uma cicatriz nova no flanco esquerdo e menos certeza do que quando entrara. Mas agora sabia uma coisa: Rei Demônio não era raça. Era função. Alguém, em algum passado, criara um trono para controlar a Lei da Fome. E todo trono procurava ocupante.

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