Pacto no Pântano de Vidro
O Pântano de Vidro não refletia o céu. Refletia culpa.
Garon explicou isso enquanto afundavam até os joelhos em água transparente e lama cortante. Séculos antes, magos de Aurel haviam derretido uma floresta inteira para impedir a marcha de um exército demoníaco. As árvores viraram colunas translúcidas. Os animais viraram sombras presas dentro do vidro. À noite, quando a lua tocava os canais, era possível ouvir cervos correndo sem corpo.
— História oficial diz que foi uma vitória limpa — Garon comentou. — Sempre desconfie de vitória limpa. Normalmente alguém lavou o sangue antes de escrever.
Kael carregava Nadir presa às costas. A espada quebrada parecia mais pesada perto do pântano, como se reconhecesse o lugar. Varr e as crianças tinham sido trazidos das ruínas para um acampamento escondido entre raízes de vidro. Ali, pela primeira vez, goblins, dois kobolds libertos e um anão dividiram fogueira sem tentar matar uns aos outros por mais de dez minutos. Era progresso.
Liora cuidava dos feridos com magia mínima. Desde que quebrara a corrente sagrada, sua relação com a Chama Clara mudara. A luz ainda vinha quando ela chamava, mas não obedecia como antes. Parecia perguntar por quê.
— Talvez fé adulta seja assim — ela disse a Kael, enquanto fechava um corte no ombro de Sika. — Menos certeza, mais conversa.
— Minha magia só grita para eu comer coisas.
— Cada religião com seus problemas.
O momento quase foi calmo. Então as águas tremeram.
Do pântano emergiram kobolds armados com lanças de vidro, liderados por uma fêmea de escamas azuis chamada Tessa. Ela tinha olhos de mercadora e cicatrizes de escrava no pescoço. Os kobolds libertos por Sika correram até ela. Falaram rápido em uma língua cheia de cliques. Tessa ouviu, olhou para Kael e ergueu a lança.
— Goblin evoluído traz caçadores. Humanos vêm atrás dele. Devíamos entregá-lo antes que Vhal queime o pântano.
Sika sacou a faca. Korr ficou feliz demais por ter uma desculpa para brigar. Kael levantou a mão.
— Você está certa em ter medo.
Tessa piscou, surpresa.
— Isso é tentativa de diplomacia?
— É uma tentativa. Não prometo qualidade.
Kael ofereceu informação, remédios e a promessa de que ninguém no acampamento seria vendido ou forçado a lutar. Em troca, queria passagem e abrigo temporário. Tessa riu na cara dele.
— Promessa de monstro vale quanto?
Kael tirou o amuleto de dentes de Morga do pulso e colocou no chão entre eles.
— Para goblins, isto era memória dos mortos. Se eu quebrar minha palavra, você quebra isso e me mata tentando.
— Tentando?
— Estou sendo honesto, não modesto.
Liora fechou os olhos, provavelmente pedindo paciência a qualquer deus que ainda a atendesse. Mas Tessa pegou o amuleto. Não sorriu. Também não atacou.
O pacto foi selado ao amanhecer com sopa ruim e termos claros. O acampamento no Pântano de Vidro não teria chefe absoluto. Cada povo manteria voz. Kael lideraria apenas em guerra. Fora dela, seria contestado. Isso o aliviou mais do que ofendeu.
Naquela noite, a fome antiga sussurrou que reis não pediam permissão. Kael respondeu em silêncio que talvez por isso reis antigos tivessem destruído tanto.
Pela primeira vez, a voz não riu.

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