A Cidade que Comprava Monstros
Vhal era uma cidade construída sobre vergonha.
De longe, suas torres pareciam lanças negras fincadas no vale. De perto, Kael percebeu que a riqueza do lugar vinha de jaulas. Orcs puxavam carroças com coleiras de ferro. Kobolds limpavam esgoto. Harpias, com asas cortadas, cantavam em varandas para nobres entediados. O Baronato chamava aquilo de ordem econômica. A Igreja chamava de uso tolerado de criaturas inferiores.
Kael chamou de mercado de carne.
Entrar na cidade exigiu disfarce. Liora roubou capas de mercenários mortos, tingiu o cabelo com carvão e ensinou Kael a andar curvado como servo de arena. O chifre negro foi coberto por bandagens. Os olhos vermelhos, por um capuz baixo. Korr e Sika passaram como goblins domésticos, o que os deixou furiosos de modos diferentes: Korr fazia piadas; Sika afiava a faca em silêncio. Varr ficou nas ruínas com as crianças, protegido por armadilhas anãs.
O objetivo era simples: comprar remédios, mapas e informações. O problema era que coisas simples morriam rápido perto de Kael.
No bazar inferior, ele encontrou um anão sem barba, algo raro e humilhante entre seu povo. O homem tinha um braço mecânico de bronze, olhos cinzentos e uma loja cheia de armas quebradas. Chamava-se Garon Del-Ferro, ex-engenheiro de Bel-Tor, expulso por vender tecnologia a quem não devia.
— Preciso de uma arma — Kael disse.
Garon olhou para ele por baixo do capuz.
— Você precisa de banho, nome falso e talvez um funeral preventivo. Arma vem depois.
Liora quase sorriu. Kael decidiu gostar do anão contra a própria vontade.
Garon mostrou lâminas comuns, mas nenhuma parecia adequada. Então abriu um baú trancado com três mecanismos e retirou uma espada negra partida perto da ponta. O metal absorvia luz. A guarda lembrava uma asa de corvo.
— Nadir — disse Garon. — Lâmina de obsidiana viva. Quebrou na Guerra da Primeira Coroa. Não corta o que odeia. Corta o que reconhece.
— Isso não faz sentido.
— Armas antigas raramente fazem.
Quando Kael tocou a empunhadura, a espada vibrou. A fome recuou um passo dentro dele. Não por medo. Por respeito. A lâmina continuava quebrada; faltava quase um palmo de ponta, e assim permaneceria até ser reforjada. Ainda assim, seu peso era perfeito.
Antes que pudesse negociar, sinos tocaram. Guardas fecharam o bazar. No palco central, o capitão careca sobrevivente das ruínas apareceu com o rosto enfaixado. Ao lado dele, um sacerdote da Chama Clara segurava um cartaz desenhado com traços exagerados: um goblin de olhos vermelhos e cabelo prateado.
— O monstro evoluído está em Vhal — anunciou o sacerdote. — Quem entregá-lo receberá perdão de impostos por dez anos.
Todos começaram a olhar uns para os outros. Depois olharam para criaturas pequenas. Depois para capuzes.
Kael suspirou.
— Garon, quanto custa a espada?
— Para alguém prestes a virar recompensa? Favores futuros. Muitos.
— Fechado.
A fuga pelo bazar foi uma sequência de escolhas ruins executadas com convicção. Liora apagava lanternas e criava falsos corredores de luz. Korr mordia tornozelos com entusiasmo preocupante. Sika libertou dois kobolds apenas porque os guardas estavam usando correntes bonitas demais. Kael usou Nadir pela primeira vez contra um escudo de aço. A lâmina quebrada não atravessou metal; atravessou a intenção do guarda de segurá-lo. O homem soltou o escudo como se tivesse esquecido por que lutava.
— Eu quero essa espada de volta se você morrer! — gritou Garon, correndo atrás deles com o braço mecânico soltando fumaça.
— Se eu morrer, venha buscar!
— Péssimo atendimento ao cliente!
Eles escaparam pelos esgotos com três sacos de remédios, mapas, a espada quebrada Nadir e um anão reclamando que tecnicamente não aceitara entrar para nenhum grupo revolucionário.
Atrás deles, Vhal fechou portões. Pela primeira vez, a cidade que comprava monstros sentiu medo de ser comprada pelo próprio pecado.

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