A Primeira Evolução
Ruk vendeu os sobreviventes.
Kael descobriu quando já era tarde. O chefe goblin apareceu nas ruínas anãs com homens de armadura escura, mercenários do Baronato de Vhal. Não eram cavaleiros da Igreja; eram piores de outro jeito. Gente que não fingia santidade. Gente que calculava quantas moedas valia cada vida.
— Goblin esperto vale mais morto ou acorrentado? — perguntou o capitão mercenário, um homem careca com tatuagens de dívida no pescoço.
Ruk apontou para Kael.
— Esse. Esse come poder. Ruk quer ferro, carne, caverna nova.
Korr avançou primeiro, furioso. Foi derrubado pelo cabo de uma alabarda. Sika puxou as crianças para trás. Varr, com a perna amputada mal cicatrizada, tentou ficar de pé mesmo assim. Liora ergueu as mãos, mas ainda estava fraca do portão anão.
Kael sentiu algo se partir dentro dele, não como osso, mas como última paciência. Desde que acordara naquele mundo, tentara sobreviver sem se tornar a coisa que todos viam ao olhar para ele. Mas Ruk vendera crianças. Vendera feridos. Vendera os próprios por metal.
A luta explodiu. Mercenários eram disciplinados. Usavam redes com pesos, lanças longas, escudos que se encaixavam em meia-lua. Kael não venceu por força. Venceu porque sentia ossos sob armaduras, porque sabia quando um joelho ia virar, porque Korr e Sika aprenderam a seguir seus gestos.
Mesmo assim, perderam gente. Uma criança goblin chamada Nemi foi atingida por uma seta e morreu sem entender por quê. Morga, a velha de orelha rasgada, matou o arqueiro com uma pedra afiada e recebeu uma lâmina no ventre. Ela caiu perto de Kael, rindo sangue.
— Viu? — disse, segurando a ferida. — Corpo pequeno... língua grande... agora faz coisa grande.
— Morga, fica comigo.
— Não mando mais em corpo nenhum.
Ela empurrou para ele um amuleto feito de dentes.
— Lembra. Rei escolhe quem não será comido.
Morga morreu ali. Não havia milagre. Não havia núcleo a devorar que a trouxesse de volta. Kael guardou o amuleto no pulso direito, onde continuaria preso dali em diante.
Ruk tentou fugir durante o caos. Kael o alcançou na ponte quebrada sobre o canal de lava apagada. O chefe goblin ergueu a faca de costela.
— Grin não mata Ruk! Ruk fez Grin forte!
— Você me ensinou uma coisa — Kael disse. — Fraqueza não é desculpa para crueldade.
A luta foi curta e feia. Ruk era maior, mas estava ferido. Kael quebrou seu braço, tomou a faca e a lançou para longe. Poderia deixá-lo viver. Talvez um rei misericordioso fizesse isso. Mas Ruk já escolhera vender todos. Deixá-lo vivo seria entregar futuras crianças a novas correntes.
Kael matou Ruk com as mãos vazias.
O núcleo do chefe pulsou vermelho-escuro. A fome cantou como um coral. Kael ajoelhou ao lado do corpo, tremendo. Se devorasse outro goblin, o que ele seria? Se não devorasse, teria força para proteger os sobreviventes?
Liora aproximou-se devagar.
— Kael. Você não precisa provar nada para a fome.
— Preciso provar para o mundo.
Ele devorou o núcleo.
A dor foi diferente. Não veio apenas como poder, mas como julgamento. Memórias goblins entraram nele: frio, humilhação, medo de humanos, inveja de orcs, fome de respeito. Junto delas, uma memória humana sumiu para sempre: o som da voz de sua mãe. Kael caiu de joelhos e gritou até a garganta rasgar.
O corpo de Grin quebrou por dentro. Ossos estalaram. Músculos se reorganizaram. A pele cinzenta escureceu e depois clareou em tons de cinza-pálido. O cabelo, antes ralo e escuro, cresceu em fios prateados sujos de sangue. Um pequeno chifre negro nasceu acima da têmpora direita. Os olhos ficaram vermelhos como brasas sob gelo.
Quando a transformação terminou, Kael era mais alto que qualquer goblin, mas ainda menor que um humano adulto. Um hobgoblin marcado pela fome e pela escolha. A cicatriz branca da corrente sagrada continuava no pulso esquerdo. O amuleto de Morga pendia no direito.
Os sobreviventes se ajoelharam, não por ordem, mas por espanto. Kael odiou aquilo. E entendeu, com medo, que talvez precisasse aceitar.
— Ninguém ajoelha — disse, a voz mais firme, mais grave. — Quem vier comigo anda de pé.
Korr pegou a lança enegrecida e ficou ao lado dele. Sika fez o mesmo. Varr, apoiado em uma muleta improvisada, sorriu como se tivesse visto o impossível.
Liora observou Kael em silêncio. Não parecia aliviada. Parecia preocupada. Como alguém que salva uma vela de apagar e percebe que ela pode incendiar a casa.
Naquela noite, enquanto enterravam Morga e Nemi sob pedras anãs, Kael ouviu a voz antiga rir atrás da fome.
Primeira coroa aceita.
Ele não contou a ninguém.


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