O Nome que Morde
A criatura do rio chamava-se Mãe-Lama, embora ninguém tivesse coragem de chamá-la de perto.
Era uma massa de pele cinzenta, musgo e ossos grudados, com braços demais e olhos pequenos espalhados pelo corpo. Seguiu o grupo por túneis inundados, empurrando ondas que apagavam pegadas e esperança. Goblins que sobreviviam a cavaleiros não tinham forças para enfrentar aquilo. Humanos chamariam de monstro. Monstros chamavam de desastre natural.
Kael ordenou que corressem para as ruínas acima do rio, um antigo posto anão abandonado. As paredes tinham inscrições geométricas e canais secos por onde lava correra séculos antes. Korr arrastava Varr. Sika guiava crianças. Liora parou diante de um portão caído e leu símbolos sob a poeira.
— Isto era uma estação de troca — disse. — Os anões de Bel-Tor vendiam minério aos humanos antes da Guerra da Primeira Coroa.
— Dá para fechar?
— Com tempo.
Mãe-Lama esmagou uma coluna atrás deles.
— Então inventa tempo.
Kael enfrentou a criatura nos degraus alagados. Não porque fosse herói, mas porque era o único capaz de sobreviver a mais de um golpe. A carapaça de ferrugem cobriu seus antebraços. O fêmur de lobo que usava como arma rachou na primeira pancada contra a pele gelatinosa. O golpe devolveu uma onda de dor até o ombro.
Mãe-Lama abriu bocas sem dentes e soprou gás podre. Kael prendeu a respiração tarde demais. O mundo ficou verde. Viu a rua sem nome de sua vida humana. Viu uma mesa pequena. Viu uma mulher de mãos manchadas de tinta chamando-o para jantar. O rosto dela começou a dissolver.
Não.
Ele mordeu a própria língua até sangrar e voltou.
— Liora!
— Ainda não!
A voz dela vinha do portão, tensa. Liora desenhava círculos de luz sobre mecanismos mortos. Magia, ela explicara antes, não criava do nada. No sistema da Chama Clara, a luz precisava de vínculo: óleo, cristal, metal polido, fé, memória. Sem âncora, virava apenas brilho bonito. Por isso sacerdotes carregavam relicários. Por isso correntes sagradas doíam tanto. Elas prendiam a magia a um propósito.
Kael tinha outro sistema. A Lei da Fome. Eco, custo, adaptação. Cada núcleo devorado dava uma ferramenta e levava algo embora. A fome não se importava se ele se tornaria forte. Importava-se apenas que continuasse devorando até não sobrar nada além dela.
Mãe-Lama golpeou. Kael escapou por baixo, enfiou o fêmur rachado em uma das bocas e perdeu a arma quando a criatura fechou a mandíbula. O osso partiu. A primeira arma de Kael desapareceu dentro do monstro. Continuaria desaparecida; ele não teria o conforto simbólico de recuperá-la.
Sem arma, ele usou as unhas. Abriu cortes que se fecharam quase imediatamente. A criatura era lama e cadáver. Não havia coração claro. Mas havia ossos. O Faro mostrou um crânio maior, enterrado no centro da massa, preso por raízes.
— Korr! Lança!
Korr hesitou apenas um instante antes de jogar sua arma. Kael pegou a lança no ar, mergulhou sob um braço da Mãe-Lama e cravou a ponta no crânio oculto. A criatura berrou com todas as bocas.
— Agora!
O portão anão desceu com um estrondo. Não esmagou a Mãe-Lama, mas prendeu metade de seu corpo. Liora caiu de joelhos, exausta. Kael viu o núcleo cinzento exposto entre a pele e a pedra. A fome rugiu.
Se devorasse, talvez ganhasse regeneração. Talvez salvasse todos na próxima luta. Talvez esquecesse outra coisa essencial.
Mãe-Lama estendeu uma mão pequena, quase humana, para ele. Em sua superfície havia rostos presos, criaturas que ela consumira sem digerir. Kael entendeu então o que acontecia quando a fome vencia por completo. Não evolução. Acúmulo. Uma prisão feita de bocas.
Ele não devorou.
Em vez disso, empurrou a lança mais fundo e mandou Liora acender o mecanismo de calor. O velho canal de lava brilhou uma última vez. Fogo anão percorreu as paredes e transformou Mãe-Lama em vapor fétido. Seus gritos ecoaram até sumirem.
Kael caiu sentado, tremendo.
— Você recusou um núcleo — Liora disse, surpresa.
— Quase não consegui.
— Mas conseguiu.
Korr se aproximou, olhando para a lança enegrecida.
— Minha lança ficou viva?
— Ficou feia — Kael respondeu.
Korr sorriu, e aquilo pareceu tão impossível quanto magia.
Na parede acima do portão, entre inscrições anãs, havia um símbolo que Kael reconheceu sem saber por quê: uma coroa quebrada dentro de uma mandíbula. Quando tocou a marca, a voz antiga no fundo de sua fome sussurrou pela primeira vez uma frase inteira.
Reis não nascem. Reis são comidos pelo trono.

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