A Mão Esquerda
Yumi não dormiu mais naquela noite.
Passou as horas seguintes sentada na cama, com o caderno no colo, virando a página do rosto de Arlén pra cima e pra baixo, olhando os detalhes. A cicatriz na sobrancelha — ela lembrava que ela mesma tinha decidido que ele ia ter essa cicatriz. Os olhos azuis, um pouco puxados, com uma pinta marrom na íris esquerda. O sorriso torto, com o lado direito subindo mais que o esquerdo. Era ele. Era exatamente ele.
Mas ela não tinha desenhado isso.
Ela repetiu pra si mesma, várias vezes, como uma oração: *eu não desenhei isso.*
Levantou. Foi pra cozinha. Pegou um lápis. Tentou, com a mão direita, redesenhar o rosto de Arlén em outra folha. Tentou umas cinco vezes. Todas vieram erradas — assimétricas, duras, com olhos tortos. Ela não era boa com rostos. Era boa com cenário. Mão ruim pra figura humana. Sabia disso aos 15, sabia disso aos 23.
Tentou com a mão esquerda.
A mão esquerda dela era horrível. Letra feia, sem controle, traço trêmulo. Mas quando ela pegou o lápis e começou a desenhar — o mesmo rosto, as mesmas linhas — a mão se moveu diferente. Com controle. Com uma confiança que ela não tinha. Como se outra pessoa tivesse pegado o lápis por ela.
O rosto ficou perfeito.
Na hora exata em que o último traço tocou o papel, uma brisa passou pelo apartamento. Yumi sentiu no pescoço, fria, cheirando a chuva que não existia lá fora — o céu de São Paulo estava limpo, sem uma nuvem. A janela estava fechada.
E no desenho, em volta do rosto de Arlén, apareceu algo novo. Uma paisagem. Um castelo no fundo. Duas bandeiras hasteadas — uma com o brasão que ela tinha inventado, a outra com o brasão oposto, o do vilão. O castelo estava em ruínas pela metade.
Yumi largou o lápis. Olhou pras próprias mãos. A esquerda estava tremendo. A direita estava normal.
Ela virou o caderno. Na página ao lado, o castelo do desenho de Arlén agora tinha um nome embaixo, escrito numa caligrafia que não era a dela, nem a da avó, nem a de ninguém que ela conhecia:
*"Castelo de Vael. Tomado pela Rainha Serys. 14º ano da Fundação."*
Rainha Serys. Aquele nome também. Yumi lembrava. A vilã. A rainha do reino oposto, que ela tinha inventado aos 13, e que era o motivo pelo qual Arlén existia — ele era o herói que ia derrotar Serys e salvar o reino. Ela nunca tinha escrito essa parte. Quando desistiu, aos 15, parou bem antes do clímax. O reino ficou em guerra, sem resolução. Arlén ficou sem vilão pra enfrentar. E ela ficou sem história pra contar.
Mas Serys existia. Nesse caderno, no castelo de Vael, ela existia.
Yumi pegou o celular. Abriu o navegador. Procurou: "Vael light novel". "Rainha Serys". "Arlén fantasy". Nada. Nenhum resultado. Procurou em inglês, em japonês, em coreano. Nada.
Pegou o caderno de novo. Tentou apagar o desenho. Não saiu — a borracha passava por cima, mas o lápis continuava ali, marcado no papel, como se tivesse sido feito com tinta.
Tentou arrancar a página. Rasgou. Pegou a parte rasgada, virou — no verso, tinha outro desenho, novo, que ela não tinha feito:
Um par de olhos, vermelhos, olhando de canto, com um sorriso fino. Embaixo, com a mesma caligrafia estranha:
*"Você demorou."*
E ao lado, com outra letra, menor, mais apressada, como se tivesse sido escrito com pressa:
*"Não responde pra ela. Só pra mim. Eu sou Arlén. Eu sou seu. Por favor."*
Yumi largou o caderno. As mãos tremiam. Olhou pro teto do apartamento, em São Paulo, no terceiro andar de um prédio sem graça no centro, com uma pizza velha na sala e a luz do sol entrando.
E pela primeira vez em cinco anos, ela abriu o caderno de desenho de verdade, o dela, o que ela usava pra freela, e começou a desenhar.
Com a mão esquerda.

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