Vael em Chamas
Yumi passou o resto do dia desenhando.
Não conseguia parar. A mão esquerda se movia como se soubesse coisas que ela não sabia — traços firmes, ângulos perfeitos, sombras que pareciam reais. Quando ela finalmente parou, eram seis da tarde, e o caderno dela estava cheio de uma cidade que ela não lembrava de ter desenhado com tanta precisão.
Era Vael. A capital. As torres, as ruas estreitas, o mercado central. Tudo de memória — uma memória que ela não tinha, mas que a mão esquerda parecia carregar.
Ela levantou, foi pegar água, e quando voltou, o desenho tinha ganhado volume.
As sombras estavam mais fundas. As cores, que eram lápis de cor, pareciam mais vibrantes. E numa das ruas do mercado central, três figuras estavam de pé, pequenas, mas nítidas: um homem de armadura, uma mulher de manto vermelho, e uma criança segurando uma espada grande demais pra ela.
Yumi conhecia os três.
O homem de armadura era Arlén. A mulher de manto vermelho era uma personagem que ela tinha criado aos 13 — Kira, a melhor amiga de Arlén, que morria no capítulo que ela nunca escreveu. A criança era... a criança ela não conhecia. Não fazia parte do reino original.
Pegou o caderno do avó. Abriu a página do castelo. O castelo continuava em ruínas pela metade, mas agora tinha movimento — bandeiras se mexendo, fumaça subindo, sombras passando por trás das janelas.
Abre o caderno da avó, escreve com a mão esquerda, embaixo do castelo:
*"Arlén. Você está aí?"*
A mão treme. O lápis sai. A resposta vem em três segundos, na página ao lado, com a mesma caligrafia apressada de antes:
*"Estou. O tempo aqui é diferente. Aqui já fazem três dias desde que você acordou. Você demora pra nós. Por favor, escuta. Serys vai atacar a cidade baixa amanhã ao amanhecer. Você tem que decidir o que fazer."*
Yumi escreveu de volta:
*"Quem é a criança?"*
A resposta demorou mais. Quase um minuto. Quando veio, era só:
*"É você. Como você vai ser, se você não desenhar outra coisa."*
Yumi fechou o caderno devagar. Olhou pro teto de novo. Olhou pras próprias mãos — a esquerda com calo de tanto desenhar, a direita intacta.
Ela era a criança segurando a espada grande demais.
Ela era, naquele mundo, uma versão sua que ela ainda não tinha criado. Uma versão que ela teria que desenhar, com cuidado, pra não destruir uma cidade inteira.
E pela primeira vez em cinco anos, ela abriu o caderno, e ao invés de pensar *eu não sou boa o suficiente pra isso*, ela pensou:
*Eu criei esse mundo. Eu sou a única pessoa que pode consertar.*
Pegou o lápis com a mão esquerda. Começou a desenhar.
E o reino de Vael, pela primeira vez em quatorze anos, parou de queimar.

Comentários (0)
Faça login pra comentar
EntrarNenhum comentário ainda. Seja o primeiro!