Vol. 1 Cap. 7 O Segredo do Segundo Príncipe junho 4, 2026
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Meta 06/2026 (39,00%)Postado por miggigibe, ? Visualizações, Lançado em junho 4, 2026 Anterior ÍndicePróximo PDF
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Tradutor/Revisor: miggigibe
— Ah, Selma, que coisa absolutamente terrível o seu noivo, Aaron, ter de deixar a escola!
— E ainda deixou você para trás na academia! Tenho tanta pena de você!
As amigas de Selma sussurravam ao redor dela, com expressões que não demonstravam a menor pena.
Amigas… Sim, eram amigas. Mesmo que Selma tivesse de bajulá-las, mesmo que fosse ela quem fizesse todos os favores e recados, podia respirar aliviada desde que houvesse pessoas a quem pudesse chamar de amigas. Afinal, ela tinha uma aparência simples, sem nada de especial. Ela não tinha nada. Mas, se tivesse amigas, então pelo menos tinha alguma coisa.
— Sabe, eu ouvi dizer que Aaron era completamente apaixonado pela Bridget, do terceiro ano.
— Mesmo já estando noivo da Selma?!
— Acho que não dá para culpá-lo. Lady Bridget é mesmo linda. — Uma das amigas de Selma escondeu a boca atrás do leque e acrescentou em voz baixa: — Ao contrário da Selma, que é tão sem graça.
Aaron O’Brien. Para alguém que não tinha nada, ele era um noivo muito precioso. Mesmo que Aaron não a amasse, ainda era importante para ela. É por isso que preciso ajudá-lo, pensou. E aquela pessoa disse que só eu poderia fazer isso… Selma fechou as mãos em punhos dentro das luvas novíssimas.
Um instante depois, suas amigas ergueram os olhos, e as vozes delas ficaram mais animadas. Selma fez o mesmo e viu um jovem de cabelos castanho-oliva olhando para ela: Elliott Howard, secretário do conselho estudantil.
— Olá, Lady Selma Karsh. Desculpe incomodá-la durante seu valioso intervalo. Poderia me conceder alguns minutos?
Ah, então chegou a hora. Selma mordeu o lábio e não disse nada.
Era o intervalo do almoço, algumas horas depois de Monica ter identificado a culpada por trás da queda do vaso de flores. Ela aguardava na sala do conselho estudantil quando Elliott retornou acompanhado de Selma Karsh.
Selma mantinha a cabeça baixa e o corpo encolhido, tornando sua figura já pequena ainda menor. Tinha o rosto de alguém que sabia muito bem por que estava ali. Seu rosto estava pálido, mas tomado por uma resolução trágica, e seus olhos cor de avelã estavam sombrios.
Além de Selma, havia apenas três pessoas na sala: Felix, Elliott e Monica. Por um breve instante, os olhos de Selma se moveram, questionadores, na direção de Monica. Provavelmente se perguntava por que Monica estava na sala do conselho.
— Pois bem.
Com essa breve introdução de Felix, a atmosfera da sala mudou de imediato. Tudo o que ele fez foi deixar um leve frio se infiltrar em sua voz normalmente serena, e a tensão ao redor se retesou como uma corda. Um estreitamento quase imperceptível daqueles olhos azuis gentis bastou para transformar a natureza de seu sorriso.
Ele conseguia intimidar e comandar todos à sua volta apenas com o tom de voz e a expressão. Era isso que significava pertencer à realeza, pensou Monica, sentindo isso com clareza ao ver Selma encolher ainda mais.
— Dois dias atrás, na véspera da cerimônia de entrada, um letreiro no salão caiu na minha direção. Ontem, nos jardins dos fundos, um vaso de flores também caiu. Incidentes muito semelhantes. Muito provavelmente cometidos pela mesma pessoa.
Os dedos de Felix tamborilaram sobre a mesa. Só isso bastou para Selma quase saltar da própria pele.
— Lady Monica Norton afirma que você foi a responsável por ambos. Lady Norton, importaria-se de explicar sua lógica?
Monica soltou um guincho de surpresa. Ela apenas tinha comunicado a Felix e Elliott os resultados de sua investigação. Gostaria que o príncipe explicasse em seu lugar, mas, relutante, começou a falar.
Quando Monica começou a escrever equações no quadro-negro para apresentar uma explicação mais concreta, Felix a interrompeu.
— Não precisa ir tão longe.
Ugh… Mas falar de equações é muito mais fácil… Abatida, ela deixou o giz de lado e continuou:
— Eu verifiquei pessoalmente — disse Elliott, encarando Selma. — A única solicitação para usar a Sala de Música 2 durante o intervalo de almoço de ontem foi feita em seu nome, Lady Selma Karsh.
Selma permaneceu em silêncio, com os olhos baixos. Monica escolheu com cuidado suas próximas palavras.
— Ao lado do parapeito da sacada, encontrei um vaso sujo colocado de cabeça para baixo. Isso porque a culpada, alguém de baixa estatura, usou o vaso como apoio para subir. O parapeito daquela sacada era bem alto, então…
O uso de um vaso como apoio e de outro, vazio e portanto mais leve, para o crime apontava para uma culpada pequena e sem muita força física. E o mais importante…
Monica olhou para Selma. Ela usava um par de luvas brancas novíssimas. As luvas faziam parte do uniforme da academia, mas, quando Monica despertara na enfermaria, Selma não estava usando luvas. Seus dedos eram delicados e brancos: mãos de uma jovem que jamais conhecera trabalho pesado. A imagem ainda estava gravada na memória de Monica.
O motivo de ela não estar usando luvas era que as havia sujado ao mover o vaso para usá-lo como apoio. O vaso derrubado da sacada estava limpo. Só o vaso virado de cabeça para baixo estava sujo. Selma o havia virado, mesmo ao custo de sujar as luvas, porque precisava ganhar altura.
— …Encontrei um par de luvas manchadas de terra na lixeira do toucador mais próximo da Sala de Música 2. Suas iniciais estavam bordadas nelas.
Esse foi o golpe final. Selma, que já estava de cabeça baixa, caiu de joelhos e cobriu o rosto com as mãos.
— Sim… Sim, fui eu! — gritou ela, soluçando enquanto erguia o rosto. Suas bochechas molhadas de lágrimas tremiam, e seus lábios formavam um sorriso distorcido. Os olhos, agora arregalados, estavam desfocados. — Fui eu que derrubei o vaso e o letreiro… E fui eu que desviei o dinheiro também! Eu fiz tudo! Fui eu que levei Aaron a fazer aquilo! Enganei-o do começo ao fim! Então… Ah, por favor, eu imploro, tenham misericórdia dele… Ele não tem culpa. Eu vou devolver todo o dinheiro que ele desviou!
Felix observou Selma implorar desesperadamente, com um traço de piedade no olhar, então balançou a cabeça.
— Infelizmente, já sabemos que Aaron O’Brien esteve envolvido no desvio. Nada do que você disser agora anulará a sentença dele.
— Por favor… Por favor, eu… Podem fazer o que quiserem comigo… Só perdoem ele… — suplicou Selma em meio aos soluços.
Elliott fez uma careta amarga.
— Por que iria tão longe para proteger Aaron? Ele estava gastando aquele dinheiro com outras mulheres. Você é noiva dele.
A pergunta era cruel, mas Selma não pareceu chocada. Provavelmente já sabia que Aaron não a amava. Mesmo assim, guardara rancor pela sentença dada a Aaron, tentara ferir Felix e, no fim, tentara assumir toda a culpa pelo desvio.
Seria devoção? Ou queria tanto assim conquistar o coração de Aaron? Monica não sabia dizer.
Monica conseguira descobrir que Selma era a culpada apenas examinando os cacos do vaso. Mas, por mais palavras que fossem alinhadas numa explicação, ela não conseguia compreender os sentimentos da garota: o desejo de fazer Aaron amá-la.
Os crimes de Selma haviam sido repentinos e imprudentes. Era como se não se importasse em ser descoberta, desde que conseguisse proteger Aaron.
…Como alguém consegue depositar tanta fé em outra pessoa? pensou Monica, olhando para a garota com o rosto sem expressão.
Felix então instruiu Elliott a levar Selma para outra sala. Mais cedo ou mais tarde, ela provavelmente receberia a mesma sentença que Aaron recebera.
Depois que Selma e Elliott deixaram a sala, Monica olhou para Felix.
— Hã… O que vai… acontecer com ela?
— Os incidentes com o letreiro e o vaso foram tentativas de assassinato contra um membro da realeza. O razoável seria que ela e toda a família recebessem a pena máxima possível, não acha?
A voz de Felix era calma, mas fria. Monica juntou as mãos diante do peito e estremeceu. Ela havia provado a culpa de Selma e, com isso, condenado a garota e sua família inteira à morte.
…Então é isso que significa proteger a realeza. Monica baixou os olhos, o rosto sem cor.
Diante disso, Felix suavizou um pouco o tom.
— …Bem, era o que eu diria em outras circunstâncias. Mas tornar esses incidentes públicos causaria problemas. O mais adequado, neste caso, será fazer com que ela também deixe a escola voluntariamente, alegando motivos de saúde. — Ele endireitou-se na cadeira e soltou um leve suspiro. — Além disso, vê-la abrir mão de tudo por alguém importante para ela… foi até tocante.
Seus olhos azuis pareciam atravessar Monica e mirar algum lugar distante. Monica franziu a testa e inclinou a cabeça.
— É… é mesmo?
Ao ver Selma tentar desperdiçar a própria vida sem qualquer garantia de recompensa, Monica não achara o gesto nobre. Achara aterrorizante.
Monica entendia apego. Mas seu apego era por equações e fórmulas mágicas. Ela não conseguia sentir esse apego por pessoas, por isso não compreendia Selma.
…Eu simplesmente não entendo muito bem.
De todo modo, o caso estava encerrado, e a suspeita sobre Monica fora suspensa. Imaginando que poderia voltar para a aula, ela olhou na direção de Felix.
— Então eu vou, hã, já vou… indo…
Mas, no instante em que disse isso, seus olhos pousaram nos documentos que Felix havia espalhado sobre a mesa. Pelas densas linhas de números, eram registros contábeis. As marcas de revisão espalhadas pelas páginas provavelmente eram correções dos itens que Aaron O’Brien havia alterado.
Ao encarar todos aqueles números, Monica sentiu o pulso acelerar de empolgação. Ela era do tipo que sentia o coração cantar diante de páginas repletas de números, exatamente como aqueles registros contábeis.
…Mas o brilho nos olhos de Monica logo se apagou.
— …Três lugares — murmurou ela, examinando os documentos com desconfiança.
— Como disse? — perguntou Felix, inclinando a cabeça.
Até então, Monica mantivera bastante distância de Felix, mas agora avançou até a mesa dele, apontou para os papéis e disse num tom incomumente firme:
— Aqui, aqui e aqui. Os números estão errados.
Monica amava equações belas. Assim como outros apreciavam obras de arte por sua beleza, Monica amava fórmulas. Por isso, ver equações incompletas ou registros contábeis suspeitos a irritava muito. Como manchas em obras de arte perfeitas, erros de cálculo a deixavam fora de si.
E os documentos diante dela estavam simplesmente cobertos de manchas.
Enquanto Monica examinava os papéis com atenção, Felix se dirigiu a ela.
— Você sabe ler registros contábeis?
— Só o sistema central e o sistema-padrão ocidental, mas sim… — respondeu Monica, olhando apenas para os números escritos, sem sequer virar o rosto para Felix. Qualquer pessoa concordaria que aquele comportamento era uma afronta à realeza.
Mas, em vez de repreendê-la, Felix deixou um sorriso divertido surgir nos lábios.
— Lady Norton, se não for incômodo, poderia ajudar a revisar estes registros?
A cabeça de Monica se afastou bruscamente dos números.
— Posso?!
O trabalho acumulado em sua cabana na montanha estava sendo distribuído por Louis Miller a outras pessoas, e as aulas da Academia Serendia eram, em sua maioria, de língua, história e cultura.
Para ser franca, Monica estava faminta por números.
Felix explicou o conteúdo de cada uma das estantes até parar diante da que ficava mais à direita.
— E esta é a estante dos documentos contábeis — disse ele, retirando um molho de chaves do bolso da camisa, destrancando a estante e pegando alguns documentos. A sala tinha uma mesa de trabalho com cadeira, e ele colocou os papéis ali. — O que eu gostaria de pedir é que você revisasse nossos registros contábeis dos últimos cinco anos.
— E-eu entendo! — respondeu Monica, incapaz de esconder a alegria.
— Obrigado — disse Felix com um sorriso arrebatador.
A maioria das jovens nobres ficaria fascinada por um sorriso como aquele, mas os olhos arregalados de Monica já estavam grudados na pilha de papéis diante dela.
— Quanto às suas aulas — continuou ele —, eu falarei com seus professores. Há muita coisa, então faça apenas o que conseguir por enquanto.
— Farei! — respondeu ela, já folheando os livros-caixa.
Seus olhos brilhavam. Fazia muito tempo que ela não ficava tão animada.
…Muito bem.
Observando o perfil de Monica enquanto ela começava a trabalhar nos livros-caixa, Felix deixou seu molho de chaves cair do bolso da forma mais natural possível.
A garota não pareceu notar o leve tilintar quando ele atingiu o chão. Mas ele o havia derrubado entre a mesa de trabalho e a estante de documentos, de modo que ela com certeza o veria quando se levantasse. Então, deixou-a sozinha na sala de arquivos.
Depois de sair pelo corredor e dobrar uma esquina, certificou-se de que não havia ninguém por perto e deu um leve toque no próprio bolso.
— Wildianu?
Ao chamado de Felix, um pequeno lagarto deslizou para fora de seu bolso. Os olhos do lagarto eram azul-claros, e suas escamas eram brancas com um toque desse mesmo azul. Nenhum lagarto comum tinha aquela coloração. Mas ele não era um lagarto: era um espírito de alto nível contratado por Felix.
— Chamou, mestre?
Felix colocou a mão ao lado do bolso, e Wildianu subiu por seu dedo até rastejar para o dorso de sua mão. Aproximando o lagarto do rosto, ordenou em voz baixa:
— Fique perto da sala de arquivos e observe Lady Norton.
— …Foi por isso que o senhor derrubou as chaves de propósito?
Felix soltou uma risada baixa. Aquele sorriso era diferente de seu sorriso “principesco” de costume, calmo e gentil. Era o sorriso de um caçador preparando uma armadilha.
Agora que Monica se aproximara dele e pedira para ver os registros contábeis, Felix já não acreditava que ela fosse apenas uma garota comum. Precisava presumir que ela tinha algum objetivo, e conseguia pensar em três possibilidades.
A primeira era que ela tivesse sido enviada por Duque Clockford, seu avô materno, para vigiá-lo. A segunda era que tivesse sido enviada por seu pai, o rei, para vigiá-lo ou protegê-lo. A terceira e última era que ela fosse uma assassina atrás de sua vida.
Mas, para alguém enviada por Duque Clockford ou pelo rei, Monica era surpreendentemente incompetente. Era difícil imaginar que qualquer um deles mandasse alguém tão distraída e descuidada.
Ainda assim, Felix estava longe de se convencer de que ela era uma assassina enviada para matá-lo. Ela nem mesmo parecia conhecer seu rosto. Além disso, se fosse uma assassina, teria tentado feri-lo quando ele saíra na noite anterior.
Do dorso da mão de Felix, o lagarto branco perguntou, hesitante:
— Não é possível que Lady Monica Norton seja realmente… apenas uma garota?
— É por isso que estou testando-a.
Se Monica viera à academia com algum objetivo em mente, com certeza vasculharia a sala de arquivos usando as chaves que Felix deixara cair.
— Se Lady Norton pegar as chaves e começar a remexer em estantes que não têm relação com o trabalho dela, avise-me.
Foi por isso que Felix explicara a ela qual era o conteúdo de cada estante.
— Entendido, mestre — disse Wildianu, antes de Felix baixá-lo delicadamente até o chão.
— Vamos esperar até o fim das aulas de hoje. Até lá, ela terá revelado suas verdadeiras cores.
— …E se não revelar?
Diante da pergunta de Wildianu, Felix estreitou os olhos azuis e sorriu.
— Hmm. Nesse caso…
Todos os dias, depois do fim das aulas, os alunos que tinham compromissos, como clubes, reuniões de chá e afins, precisavam se deslocar. Naturalmente, os corredores ficavam lotados.
Entre a multidão havia três alunas paradas e conversando perto da sala do conselho estudantil. No centro delas estava Caroline Simmons, a filha de cabelos cor de caramelo do Conde Norn.
— Por que será que Selma foi chamada ao conselho estudantil? — perguntou Caroline por trás do leque.
Suas duas seguidoras responderam em voz baixa.
— Talvez tenha acontecido algo com Aaron. Afinal, ela é noiva dele.
— Acho difícil, mas… será que ela não vai sucedê-lo como tesoureira do conselho estudantil?
Caroline soltou uma risadinha pelo nariz. Imagine só: Selma, aquela garota sem graça e sem atrativo nenhum, como membro do conselho estudantil!
Os membros do conselho estudantil eram a elite da Academia Serendia. Ninguém podia ser escolhido sem ter uma família excelente e notas excelentes, especialmente agora, com Felix Arc Ridill, o segundo príncipe do reino, como presidente.
O rei de Ridill tinha três filhos, mas ainda não anunciara qual deles herdaria o trono. No momento, o movimento que apoiava o segundo príncipe como próximo rei ganhava força entre os nobres. Afinal, ele contava com o apoio de Duque Clockford, um grande nobre. A facção do segundo príncipe ficava mais poderosa a cada dia. Se as coisas continuassem assim, ele certamente herdaria o trono.
Isso também significava que todas as jovens nobres da academia praticamente competiam entre si para se tornar sua noiva. Ainda mais porque Felix era muito, mas muito mais atraente fisicamente que o grosseiro primeiro príncipe ou o jovem e esquecível terceiro príncipe.
Caroline, que se apaixonara por Felix à primeira vista, rondava a sala do conselho estudantil sempre que tinha oportunidade. Como Felix estava no terceiro ano e Caroline no segundo, havia poucas chances de se encontrarem, mesmo estudando na mesma escola. Ela teria que criar essas oportunidades por conta própria.
Lorde Felix deve estar vindo pelo corredor a qualquer momento, pensou ela, silenciosamente determinada. Hoje seria o dia em que chamaria a atenção dele.
Foi então que ouviu passos atrás de si. Seu coração saltou de expectativa. Seria ele? Ela se virou e viu, em vez disso, uma garota de beleza estonteante, com cabelos loiros lisos.
Era Bridget Greyham, filha do Marquês Shaleberry, a única aluna do conselho estudantil. Também era uma das três garotas mais bonitas da Academia Serendia. Voltando o rosto belo para as outras alunas, ela disse friamente:
— Vocês estão bloqueando a passagem. Poderiam sair da frente?
Isso bastou para as duas seguidoras de Caroline baixarem os olhos, constrangidas, e se moverem para junto da parede. Caroline fez o mesmo. Se fosse Lana Colette, aquela garota insolente de família recém-nobre, ela provavelmente teria dito: Por que não dá a volta? Bridget, no entanto, estava em um nível completamente diferente.
Suas notas eram excelentes, e ela mantinha uma posição elevada mesmo estando no terceiro ano. Em especial nas áreas linguísticas, era um gênio que rivalizava até com Felix, que possuía as notas mais altas no geral. Nem sua aparência nem sua linhagem deixavam a desejar, e ela era amiga de infância de Felix.
Acima de tudo, Bridget era a única aluna indicada por Felix para o conselho estudantil atual. Isso, por si só, mostrava a confiança que ele depositava nela, e muitos achavam que ela era a mais adequada para se tornar sua noiva.
Era uma lady impecável, perfeita. Na presença dela, tudo o que Caroline podia fazer era baixar os olhos em silêncio e ceder passagem.
Bridget seguiu diretamente para a sala do conselho estudantil, sem sequer lançar um olhar às garotas paradas do lado de fora. Mas, quando girou a maçaneta, seu rosto se contraiu em suspeita. A porta estava destrancada.
Eu tinha certeza de que seria a primeira a chegar, pensou, um pouco confusa, entrando na sala. Não via ninguém, mas podia ouvir sons baixos vindos da sala de arquivos adjacente. Pensando em cumprimentar quem quer que estivesse trabalhando ali, espiou para dentro e ficou muda.
Uma das estantes estava vazia, e pilhas de papéis se acumulavam no chão. Na mesa ao fundo da sala, lendo documentos em silêncio, estava alguém que ela jamais esperaria encontrar ali: uma garota de cabelos castanho-claros.
— Você estava na sala de música mais cedo, não estava? Informe sua turma e seu nome. Com a permissão de quem entrou nesta sala?
Apesar de Bridget falar com ela, a garota pequena não se sobressaltou. Na verdade, não demonstrou reação alguma.
— Responda — disse Bridget com mais firmeza.
Ainda assim, nada.
Cada vez mais impaciente, Bridget estava prestes a levantar ainda mais a voz quando dois alunos apareceram atrás dela, ambos membros do conselho estudantil.
— Oh? Lady Bridget chegou primeiro hoje, hein… Espera, mas o que diabos é isso?!
— Os documentos estão espalhados por toda parte! Espera… quem é aquela?
Elliott e Neil, o oficial de assuntos gerais, ficaram chocados ao se aproximarem de Bridget.
Elliott parecia conhecer a garota que fizera aquela bagunça na sala de arquivos. Ele se aproximou da mesa e falou com ela.
— Lady Norton, o que está fazendo aqui? Estes são registros contábeis, não são? Você não deveria estar olhando isso sem permissão. Ei, Lady Norton. Lady Monica Norton, está me ouvindo?
Apesar dos esforços de Elliott, a garota chamada Monica não parecia notar absolutamente nada. Continuava lendo os registros contábeis sem dizer uma palavra.
Neil franziu a testa, preocupado.
— Pelo visto, ela é aluna do segundo ano, como eu… Mas nunca a vi antes. — Ele se aproximou da mesa e chamou-a por trás. — Olá? Com licença? Gostaria de falar com você. Tem um momento?
Ainda nenhuma resposta, enquanto a garota folheava silenciosamente página após página dos registros. Às vezes, escrevia alguns números em uma pequena tira de papel e a colocava entre as páginas. Seus olhos nunca deixavam os documentos, nunca se viravam para Bridget e os outros.
Enquanto Elliott e Neil permaneciam ali sem saber o que fazer, Bridget passou entre eles e foi até a garota. Então ergueu o leque em sua mão e o desceu com força contra a bochecha dela.
Um alto tapa ecoou pela sala, e a garota parou por um instante. Elliott e Neil recuaram, assustados com a atitude de Bridget.
Enquanto isso, Bridget abriu o leque e disse friamente:
— Acordou agora?
— …
A garota interrompera o trabalho por alguns segundos, mas logo voltou a folhear as páginas como se nada tivesse acontecido.
Isso doeu.
Com a cabeça perdida no mundo dos números, Monica sentiu de repente uma dor aguda na bochecha.
Coisas que doem são assustadoras. Coisas assustadoras são difíceis de enfrentar.
Quanto mais dor e medo sentia, mais os pensamentos de Monica afundavam na matemática.
Afinal, quando pensava em números, tudo era fácil.
Aquele belo mundo dos números jamais a machucaria.
Jamais diria coisas horríveis, jamais lhe causaria dor.
Por isso, ao sentir o golpe na bochecha, Monica se afastou ainda mais da realidade e mergulhou de volta em suas equações.
Droga, isso é muito ruim! Monica perdeu completamente o controle!
Durante suas explorações pelo prédio da escola, o gato preto Nero por acaso avistara aquela cena pela janela do conselho estudantil. Vira tudo, inclusive o momento em que Monica fora atingida pelo leque.
Não, assim não funciona! Bater nela desse jeito tem o efeito contrário! Se assustarem Monica agora, ela só vai ficar ainda mais difícil de alcançar!
Nero sabia como trazê-la de volta a si. A resposta eram suas patas. Se ele apertasse as bochechas dela com as patas, ela despertaria. Queria ir até ela, mas a janela estava trancada, e ele não conseguia entrar. Arranhou o vidro, miando.
O menor dos garotos foi o primeiro a notar Nero.
— Ah, um gato.
Os outros dois seguiram seu olhar até a janela.
Ótimo! Agora vai!
Nero se acomodou com delicadeza no batente da janela, assumiu sua pose mais fofa e soltou um belo “miau”.
O que acharam da minha técnica secreta?! Coloquei tudo nesta pose sedutora! Ela faz todas as garotinhas enlouquecerem por mim! Quando posava daquele jeito, a maioria dos humanos ficava encantada na hora e o deixava entrar.
Também estão livres para me escovar e me dar comida!, pensou Nero, bufando com orgulho.
A jovem lady com o leque disse sem emoção:
— Odeio criaturas que só servem para bajular os outros.
Miau, miau… Miau — o quê?!
Nero explodiu de raiva. Como poderia tolerar aquilo? A resposta era: não poderia. Era absolutamente inaceitável. Ele era fofo demais para ser tratado daquela maneira!
Quem foi que me chamou de criatura que só serve para bajular?! Repete isso na minha cara! Vou mostrar o que acontece quando fico sério.
Nero bateu as patas e miou com fúria, mas Monica ainda não o notou. Como imaginava, a única forma de fazê-la voltar a si seria apertar suas bochechas com as patas.
Me! Deixem! Entrar! Deixem eu apertar as bochechas dela!
Enquanto Nero arranhava desesperadamente a janela, outras duas pessoas entraram na sala de arquivos.
Era o segundo príncipe e presidente do conselho estudantil, acompanhado de um garoto de cabelos prateados que parecia ser seu auxiliar.
O segundo príncipe, com seus cabelos dourados reluzindo, olhou ao redor da sala de arquivos.
— Olá — disse ele. — O que está acontecendo aqui?
A primeira coisa que Felix fez ao entrar na sala de arquivos foi verificar o molho de chaves.
…Ainda está onde eu deixei cair.
Com naturalidade, lançou um olhar para as outras estantes, mas não havia sinal de que tivessem sido mexidas. A única completamente revirada era a estante dos registros contábeis.
Wildianu, o lagarto que se infiltrara na sala para vigiar Monica Norton, subiu pelas roupas de Felix. Quando finalmente chegou ao ombro dele, disse em voz baixa o bastante para os outros não ouvirem:
— Desde o intervalo do almoço, ela não fez nada além de revisar estes registros por horas.
— …Hmm.
Felix pegou alguns papéis aos seus pés e examinou o conteúdo. Eram registros contábeis de vinte e quatro anos atrás, com pequenas tiras de papel indicando os números corrigidos. Os outros documentos estavam iguais.
Enquanto ele os examinava, o vice-presidente Cyril encarou Monica com suspeita.
— Eu me lembro de você do incidente na escada mais cedo… O que está fazendo aqui?
— Incidente na escada? Cyril, você conhece Lady Norton? — perguntou Felix.
Cyril soltou um “b-bem, mais ou menos” vago e assentiu.
Monica também não demonstrou reação alguma a essa troca. Continuou trabalhando em silêncio.
Foi então que Felix percebeu o inchaço na bochecha direita de Monica.
— O que é isto? — perguntou.
— Uma pequena punição minha para alguém que está sendo muito rude — respondeu Bridget com o rosto impassível, antes de esconder a boca atrás do leque.
Então a atitude de Monica havia irritado Bridget. Com as pontas enluvadas dos dedos, ele tocou de leve a bochecha de Monica. Mais uma vez, ela nem piscou.
— Eu pedi que ela revisasse nossos registros contábeis — explicou aos demais, fazendo mentalmente as contas de uma página com uma tira de correção.
A correção dela estava no alvo. Havia, sim, uma falha.
…Então ela está revisando todos os registros antigos? Até Felix não pôde deixar de se surpreender. Havia quanto tempo algo não o surpreendia tanto assim?
Sentindo uma pontada de admiração, Felix tocou de leve o ombro de Monica.
— Lady Norton, excelente trabalho. Pode fazer uma pausa agora.
Monica não respondeu.
— Lady Norton?
Felix sacudiu o ombro dela com um pouco mais de firmeza, mas Monica ergueu o braço direito e, de todas as coisas possíveis, afastou a mão dele com irritação.
Um murmúrio agitado percorreu os outros membros do conselho. Cyril, que jurara lealdade a Felix, ficou especialmente furioso. Enfurecido, na verdade. Veias saltaram em suas têmporas, e ele começou a espalhar mana gélida. Cyril costumava ser um jovem bastante educado com as alunas, mas, quando alguém ofendia Felix, a história era outra.
— Sua insolente! Como ousa agir com tamanha rudeza diante de Sua Alteza Real! Você merece ser enforcada! — rugiu ele, começando a entoar um feitiço.
Felix ergueu uma mão para detê-lo. Monica estava concentrando cada partícula de sua atenção nos cálculos. A garota que ficava inquieta e nervosa tentando avaliar as reações dele agora nem sequer olhava para ele.
Uma ponta de curiosidade começou a fazer cócegas em seu coração, e um sorriso fino surgiu em seus lábios. Ele acariciou o rosto de Monica com um dedo, então deu um pequeno beijo em sua bochecha inchada.
Enquanto os outros membros do conselho assistiam em silêncio atônito, Monica parou de repente. Mas seus olhos continuavam nos documentos.
— …Nero, só mais um minuto… Já estou quase terminando…
— Nero? — repetiu Felix, inclinando a cabeça.
Os ombros finos de Monica estremeceram de súbito, e a pena caiu de sua mão. Logo ela começou a tremer da cabeça aos pés, erguendo o rostinho para olhar Felix.
— P-P-P-P-Pri-Prín-Pr-Pri-Pri…
— Sim. Agora está melhor — disse Felix, rindo com leveza diante daquela gagueira estranha.
Monica caiu da cadeira e então se prostrou no chão.
— Eu, eu sin-sinto mui-muit— Ai! — Ela deve ter mordido a língua no fim. Levou a mão à boca e começou a choramingar. — Ishto doeu.
Felix, divertindo-se com a chance de observar uma criatura tão estranha e encantadora, acariciou-lhe a cabeça com gentileza.
— Pode levantar o rosto, está bem? Você fez o melhor possível para cumprir meu pedido, não fez? Não fez nada de errado.
— Eep… S-sim, shenhor… — Monica assentiu, fungando alto.
— Hã, senhor — interrompeu Elliott. — O senhor mandou essa esquilinha revisar os registros?
— Sim. Pedi que verificasse os últimos cinco anos, mas… nem eu esperava que ela passasse por todos os nossos registros antigos em apenas algumas horas. — Felix fez uma pausa e então sorriu para Monica, que ainda fungava. — Lady Norton, o que achou ao olhar esses registros contábeis?
— Hã… Bem…
— Pode ser sincera comigo. Não vou ficar bravo — encorajou-a, com a voz calma.
Monica começou a remexer os dedos.
— …Uma quantia surpreendente de dinheiro é movimentada, mas a administração é surpreendentemente descuidada, o que, hã, me surpreendeu.
— Como ousa! — gritou Cyril.
Monica cobriu a cabeça com as mãos.
— O senhor disse que não ficaria bravo… — choramingou.
Outro sorriso fino surgiu nos lábios de Felix enquanto ele olhava para os demais membros do conselho estudantil.
— Este é o estado em que se encontra a longa história do nosso conselho estudantil. Nem mesmo eu consegui identificar de imediato as irregularidades de Aaron O’Brien… Por isso, refletindo sobre os erros do passado, gostaria de fazer uma declaração.
Então segurou a mão de Monica, que ainda soluçava e se encolhia, e proclamou em voz alta:
— Por meio desta, nomeio Lady Monica Norton, aluna do segundo ano do curso avançado, como tesoureira do conselho estudantil.
Um instante depois, os olhos de Monica reviraram, e ela desmaiou ali mesmo.
Enquanto isso, o gato preto do lado de fora da janela continuava miando bem alto.
— Ei, Monica, acorda. Ei!
Monica conseguia ouvir a voz de Nero. Sentia a maciez da pata dele apertando sua bochecha.
Seus olhos se abriram aos poucos, e ela percebeu que estava deitada em uma cama simples. Cortinas destinadas a isolá-la cercavam a cama, e havia um leve cheiro de desinfetante no ar.
Ela reconhecia o teto acima de si. Era a enfermaria para onde fora levada depois do incidente do vaso.
Virando-se na cama, viu Nero sentado ao seu lado. Animais eram proibidos na enfermaria, então ele provavelmente havia entrado escondido pela janela.
— …Nero, escuta. Eu tive um sonho incrível. Sonhei que fui nomeada tesoureira do conselho estudantil…
— Ouça e se impressione, Monica, pois não foi sonho nenhum. Foi realidade! — disse Nero, cutucando a gola dela com a pata dianteira.
Um broche decorativo desconhecido agora adornava sua lapela. Era igual ao que Felix e os outros membros do conselho estudantil usavam: prova de que ela era membro do conselho.
Monica sentou-se na cama e fixou os olhos no broche.
— O-o-o que é isto…?!
— Aquele príncipe reluzente colocou na sua gola. Humanos gostam mesmo dessas coisas, hein? Ficar exibindo autoridade e tudo mais. — Nero assentiu para si mesmo, então golpeou a coxa de Monica com as patas. — De todo modo, você fez um excelente trabalho. Agora pode ficar perto do príncipe como membro do conselho estudantil.
— S-sim, bem… Mas…
Considerando sua missão de proteger secretamente o segundo príncipe, a nomeação como tesoureira era algo a se comemorar. Mas uma garota desinteressante como ela ser escolhida como membro do conselho estudantil? Poucos ficariam satisfeitos com isso.
Na hora, Monica estivera praticamente rastejando no chão, então não vira o rosto dos membros do conselho. Mas, mesmo dali de baixo, conseguira sentir olhares frios e hostis sobre si. Especialmente o do vice-presidente, Cyril Ashley. Ele parecia pronto para lançar um ou dois feitiços ofensivos contra ela.
— E-eles vão me maltratar com certeza… Ugh… Vão colocar tachinhas nos meus sapatos, esconder meus lápis e jogar água no meu uniforme… Não consigo. Não quero voltar para a sala de aula…
— Ah! Já li sobre coisas assim em romances! Quer dizer que as pessoas fazem isso de verdade?
— Por que você parece estar se divertindo com isso?! — gritou Monica, amargurada.
Nesse instante, as orelhas de Nero se ergueram.
— Ei, Monica, tem alguém vindo — disse ele, escorregando rapidamente para debaixo da cama.
Quem será? Uma enfermeira? pensou Monica quando as cortinas ao redor da cama foram abertas.
Mas não era uma enfermeira. Era Felix.
Por reflexo, ela puxou o cobertor por cima da cabeça. Tinha plena consciência de que aquilo era rude, mas suas mãos se moveram sozinhas. Não conseguia evitar. Era um instinto defensivo.
Felix, porém, não pareceu incomodado. Na verdade, sorriu, aparentemente divertido.
— Ah, você acordou? Desculpe por não avisar. Achei que ainda estivesse dormindo.
— N-não, eu, v-v-você n-não…
— Eu não?
— Você não, hã, precisa… mencionar isso… — espremeu Monica, com todo o esforço que tinha.
— Entendo — disse Felix, evidentemente entretido. Então, de todas as coisas possíveis, sentou-se na beirada da cama dela e cruzou as pernas.
Querendo criar a maior distância possível entre os dois, Monica, ainda enrolada no cobertor, moveu-se até a beirada oposta da cama… e perdeu o equilíbrio, caindo no chão.
— Eek!
Felizmente, o cobertor impediu qualquer dano real. Mas ela certamente estava caindo bastante naquele dia.
Enquanto se sentava no chão, fungando, Nero a encarou de debaixo da cama como se perguntasse o que diabos ela estava fazendo. Àquela altura, ela só queria se esconder debaixo da cama, enrolada no cobertor.
Felix se dirigiu a ela mais uma vez.
— Uma esquilinha enrolada em um cobertor… Está entrando em hibernação para o inverno?
— S-sim, é-isso mesmo, hã, hoje, bem, estava, hã, muito f-frio, então…
O verão acabara de dar lugar ao outono, e o clima estava extremamente agradável. Ainda assim, Monica agarrou o cobertor e insistiu heroicamente que estava com frio.
Então Felix colocou a mão sobre a de Monica, que ainda segurava o cobertor, e disse:
— Ah? Pobrezinha. Então precisamos aquecê-la.
Monica soltou o cobertor imediatamente, levantou-se e saltou para trás, afastando-se de Felix… mas não estava acostumada a movimentos assim, tropeçou no próprio pé e caiu de novo no chão com um guincho engraçado.
Mais uma vez, seus olhos encontraram os de Nero debaixo da cama. Ela queria chorar. Mas não podia ficar se arrastando pelo chão para sempre. Lentamente, sentou-se outra vez, escondeu-se atrás da cama e olhou para Felix.
— H-hã, S-Sua Alteza R-Real, hã…
— Pode me chamar de Presidente, ou até simplesmente Felix. Não me importo. Agora você é minha colega de conselho, afinal.
As palavras de Felix forçaram Monica a encarar a realidade.
Ela arrancou o broche decorativo da lapela e disse a Felix, com o corpo tremendo:
— O-o cargo de tesoureira é, hã… demais para mim, senhor.
— Insatisfeita com a minha liderança?
Só de deixar um leve frio entrar na voz, ele de repente se tornou muito mais intimidador. Monica balançou a cabeça com tanta força que sentiu como se fosse soltá-la do pescoço.
Felix sorriu e disse:
— Então não há problema, há?
E pegou a mão de Monica. Virou-a com a palma para cima e colocou algo nela. Era um biscoito assado com muitas frutinhas por cima.
— Sua recompensa por hoje. Você fez um bom trabalho.
— Eu, ob-obrig… Mgh!
Quando Monica tentou agradecer, ele enfiou o doce na boca dela. Percebendo que havia pulado o almoço, ela começou a mastigá-lo em silêncio. Era um biscoito, um pouco duro, com frutinhas presas por mel. Ela nunca tinha comido nada parecido. Era muito gostoso.
Depois que começava a comer, Monica era do tipo que se concentrava na refeição até terminar. Por isso, esqueceu que acabara de pedir para deixar o cargo de tesoureira e simplesmente roeu o biscoito, absorvendo o sabor.
— Está gostoso? — perguntou Felix, soando divertido.
Monica assentiu, a boca cheia de biscoito.
Ele colocou outro em sua mão e se levantou em silêncio.
— Se continuar se saindo bem, haverá mais de onde esse veio — disse. — Até amanhã.
Felix acenou e deixou a enfermaria.
Sozinha agora, Monica engoliu o resto do biscoito e finalmente despertou do transe.
— Ahhhh! Perdi a chance de recusar o cargo de tesoureira! — lamentou. — O que eu faço agora, Nero?!
— Sabe… você não parece muito convincente com esse lanche na mão.
Monica fungou e colocou o biscoito no bolso.
Ah, é mesmo… pensou. Levou a mão à bochecha inchada e então olhou para Nero, séria.
— Nero, escuta. Eu acidentalmente descobri um enorme segredo sobre o príncipe.
— Oooh? E qual é? O ponto fraco dele? — perguntou Nero, balançando a cauda de um lado para o outro, os olhos brilhando.
Monica assentiu gravemente e disse:
— O príncipe………………………………………….. tem patas.
Nero respondeu sem emoção:
— Não, ele não tem.
— M-mas na sala de arquivos! Eu senti uma almofadinha apertando minha bochecha, e então voltei a mim e vi ele — insistiu, esfregando a bochecha.
A expressão de Nero ficou séria de repente.
— Apenas esqueça isso, Monica. Entendeu? Esqueça tudo isso.
— Hã? Um, tudo bem.
Quando Felix voltou ao seu quarto no dormitório, seu lagarto branco, Wildianu, rastejou para fora do bolso do uniforme. Assim que o lagarto pousou no chão, uma névoa pálida o envolveu, e ele se transformou em um jovem com cabelos da mesma cor de suas escamas. Suas feições eram bonitas o suficiente, mas ele parecia, de algum modo, esquecível e sem ambição. Usava um uniforme de criado limpo e bem-ajustado. Seus cabelos eram de um branco inumano com tons de azul, penteados para trás.
Agora em forma humana, o espírito Wildianu fez uma reverência respeitosa, então retirou o colete de Felix e o pendurou. Perguntou, um tanto hesitante:
— Isso foi sensato, mestre?
Era óbvio ao que Wildianu se referia: a nomeação de Monica Norton como tesoureira. Felix sentou-se no sofá e deu de ombros de leve.
— Ela não tocou nas chaves da sala de arquivos que deixei cair de propósito. Você a estava observando, não estava? Não vejo motivo para criticá-la.
Depois que Monica desmaiou, ele examinara todos os registros, e cada uma das coisas que ela apontara estava correta. Setenta e quatro anos de registros, todos revisados por Monica em questão de horas. Suas habilidades matemáticas eram perfeitamente adequadas ao trabalho de tesoureira.
— É claro que não acredito que ela seja apenas uma garota qualquer — disse Felix. — Tenho certeza de que há uma razão para ela ter se aproximado de mim.
No momento, Felix não sabia a qual facção Monica Norton pertencia, nem qual era o objetivo dela ao se aproximar dele. Ainda assim, tinha certeza de que havia algo por trás dela. Reclinando-se no sofá, inclinou a cabeça apenas um pouco e olhou para Wildianu.
— Você provavelmente está se perguntando por que a tornei tesoureira apesar de tudo isso, não é?
— …Sim, senhor. O senhor também percebeu desde o início os delitos do antigo tesoureiro, Aaron O’Brien, não percebeu?
Felix deixara o garoto agir como quisesse por um ano, já que uma ou duas ocorrências não bastariam para justificar uma punição severa. Precisava ter certeza de que conseguiria expulsar Aaron O’Brien da academia.
— E, depois que finalmente conseguiu fazê-lo ser expulso… por que a colocou como sucessora dele?
Felix não respondeu de imediato à pergunta do criado. Em vez disso, estendeu a mão para o tabuleiro de xadrez que deixara sobre a mesa baixa. Pegou um peão branco e o fez rolar pela palma.
— É um jogo, Wil.
— …Um jogo, senhor?
— Sim. Um jogo em que tento amansar uma esquilinha e fazê-la confessar o que pretende. — Ele devolveu o peão ao tabuleiro e estreitou os olhos, divertindo-se. — Você também viu. Ela não tinha interesse nenhum em mim. Parece achar “Os Porcos do Velho Sam” mais impressionante.
— B-bem, senhor, isso é…
Monica ficara tão absorta nos documentos que não dera sequer um olhar a Felix. E então, quando ele se aproximara na enfermaria, ela empalidecera como papel e caíra da cama. Também não estava tentando esconder o constrangimento. Não: ela sentira medo de verdade.
— Mas, com a escolha do sucessor ao trono tão próxima, esses jogos são realmente…?
— Wildianu — interrompeu Felix em voz cantada. Wildianu endireitou a postura. — Minha vida só dura até o próximo rei ser escolhido. Por que não… me deixar divertir um pouco?
Ele ergueu as sobrancelhas apenas de leve e ofereceu um sorriso efêmero.
Wildianu, que conhecia o desejo de Felix, inclinou-se educadamente pela cintura.
— Como ordenar, meu senhor.
Felix assentiu, satisfeito, e moveu a rainha branca até a borda do tabuleiro.
— Ainda assim, sair escondido ontem à noite para me divertir um pouco foi um erro. Pensar que Lady Norton me veria… Disfarcei dizendo que era uma operação para servir de isca, mas mesmo assim.
O motivo de Felix estar do lado de fora na noite anterior não era, na verdade, descobrir quem estava por trás das tentativas de assassinato. Ele saíra escondido para ter algum tempo longe do dormitório, e não contara nada a Elliott.
— A esquilinha tem olhos surpreendentemente atentos… Acho melhor evitar minhas escapadas noturnas por enquanto.
— Talvez devesse encerrá-los por completo, senhor.
— Bem, suponho que terei de pensar em maneiras de atrair a esquilinha para me distrair.
Felix riu baixinho e derrubou o peão branco com um peteleco. Ele rolou pelo tabuleiro e então caiu.
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