Vol. 1 Cap. 8 Mecânica dos Cílios junho 5, 2026
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Meta 06/2026 (39,00%)Postado por miggigibe, ? Visualizações, Lançado em junho 5, 2026 Anterior ÍndicePróximo PDF
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Tradutor/Revisor: miggigibe
— Argh, francamente… O que o príncipe está pensando? — murmurou Cyril Ashley enquanto examinava os documentos da sala de arquivos.
Felix não lhe dera ordem para revisar aqueles documentos. Os outros membros do conselho estudantil já haviam voltado para os dormitórios. Cyril decidira ficar e conferir tudo por conta própria porque simplesmente não conseguia confiar em Monica Norton.
O príncipe dissera que ela havia revisado todos os documentos antigos, mas não havia como ela ter feito isso nas poucas horas entre o intervalo do almoço e o fim das aulas. Aquilo só podia ser um engano. Por isso, Cyril vasculhava os papéis freneticamente, procurando qualquer sinal de que Monica tivesse feito um trabalho descuidado.
Infelizmente, quanto mais verificava, mais percebia que a revisão de Monica fora perfeita. Ela havia apontado erros numéricos mínimos, daqueles que até Cyril teria deixado passar. A essa altura, ele precisava admitir que a habilidade dela para cálculos era extraordinária, mas…
— …Mesmo assim, não gosto.
Como aquela garota ousara ignorar Felix, o segundo príncipe em pessoa, enquanto ele falava com ela, para ficar olhando documentos? Era uma afronta à realeza!
A lembrança da cena o irritou outra vez. Mas, enquanto arrumava os papéis, ele percebeu algo de repente.
…Os números estão escritos como se…
Todas aquelas imperfeições que Monica descobrira pareciam ter aumentado depois de certo ano.
E Cyril tinha uma ideia de quem era a caligrafia nas linhas acrescentadas. Os números eram escritos com inclinação para a direita, algo muito comum em canhotos.
…Será? Não, mas espere, isso não…
Cyril conferiu os documentos mais algumas vezes e então se levantou sem dizer nada. Precisava esclarecer aquela dúvida. Com os documentos em mãos, saiu da sala do conselho estudantil e seguiu para…
— ……?
Diante da porta da sala do conselho estudantil, Cyril voltou a si.
O que ele estava fazendo mesmo?
Ah, certo. Eu precisava trancar a sala e devolver a chave do conselho ao senhor Thornlee.
A chave estava em sua mão. Mas, ao olhá-la, sentiu que havia algo errado. Não era a chave que lhe chamara a atenção, e sim algum tipo de documento. Então se lembrou. Sim, algo nos documentos chamara sua atenção, e por isso ele tinha…
— ……
De repente, a cabeça começou a latejar. Cyril levou uma das mãos à têmpora e se apoiou na parede. Devia estar cansado. Provavelmente perdera o foco por causa disso.
…Talvez seja melhor dormir cedo hoje.
Ainda segurando a cabeça latejante, começou a caminhar em direção à sala dos professores.
— O que significa isto?! Como você, a vergonha da nossa família, conseguiu se tornar membro do conselho estudantil?! Quero a verdade agora mesmo! Como conseguiu se insinuar junto ao príncipe?!
Quem gritava era Isabelle Norton, filha do Conde Kerbeck. Sua voz ecoava pelo quarto e pelo corredor. Então ela arremessou a xícara de chá no chão. O som da porcelana se estilhaçando fez Monica prender a respiração, assustada.
Em seguida, Isabelle pegou um bicho de pelúcia ao lado da cama, ergueu-o no ar e o golpeou contra a parede. Bumf, bumf, soaram os impactos abafados.
— E que expressão insolente é essa?! Vejo que você não compreende sua posição aqui! Nesse caso, terei de lembrá-la do seu lugar! — disse Isabelle, batendo o bicho de pelúcia contra a parede com toda a força.
Então, com uma expressão revigorada, enxugou o suor da testa. Seu rosto estava cheio de realização, como o de uma artesã que acabara de concluir um trabalho.
— Como me saí como vilã? — perguntou.
— U-um, b-bem… — gaguejou Monica.
Agatha, a criada de Isabelle, que estava recolhendo os cacos da xícara, sorriu e assentiu.
— Foi maravilhoso, Lady Isabelle! A senhorita interpretou o papel com perfeição!
— Não foi? Não foi?! Aquela última fala, “terei de lembrá-la do seu lugar”, veio do livro mais recente!
— Ai! Sim, eu me lembro! É quando a filha do conde ergue o garfo, pretendendo ferir o rosto da heroína, e então o príncipe aparece para salvá-la!
— Essa cena! Foi tão, tão maravilhosa!
Monica, incapaz de acompanhar a conversa animada entre Isabelle e sua criada, tomou um pequeno gole do chá preto que haviam preparado para ela.
— U-um… Quebrar a xícara de verdade pareceu… um pouco demais… — gaguejou, olhando de relance para os cacos restantes.
Isabelle estufou o peito.
— Isso não é problema nenhum. Na verdade, ela já estava rachada! Fiz um estoque de louças defeituosas exatamente para esse propósito!
— E-entendo…
— O essencial é fazer o som ecoar. Por isso, em vez de jogar sobre um tapete, é preciso arremessar no piso duro!
Enquanto Isabelle explicava os detalhes de sua encenação desnecessariamente elaborada, Agatha abriu um sorriso radiante e bateu palmas.
— Simplesmente esplêndido, minha senhora! A senhorita é uma verdadeira artista!
Na noite em que foi nomeada tesoureira do conselho estudantil, Monica foi até o quarto de Isabelle, sua cúmplice, para colocá-la a par dos acontecimentos. Como estavam na mesma missão, achara melhor compartilhar as informações.
Mas, assim que contou a novidade, Isabelle quase saltou no ar, empolgada como se ela própria tivesse sido nomeada, e imediatamente convidou Monica para uma festa do chá em comemoração.
A abastada Isabelle não tinha apenas um quarto individual, mas também três criadas consigo. A mais jovem era Agatha, que aparentemente era sua companheira de leitura. Ela também cooperava de bom grado com a encenação de vilã de Isabelle.
E-ela realmente não vê problema em a própria senhora interpretar a vilã?
Monica não conseguia entender como as duas se divertiam tanto com aquilo.
Qualquer pessoa que passasse por aquele quarto teria a impressão equivocada de que Isabelle estava repreendendo ou punindo Monica. Aquilo não prejudicaria a reputação de Isabelle?
Sem se importar nem um pouco com isso, Isabelle devolveu o bicho de pelúcia ao lugar original e então se sentou novamente com extrema elegância.
— Pois bem — começou ela. — Monica, minha irmã, parabéns pelo seu novo cargo como tesoureira do conselho estudantil. Ser escolhida para o conselho apenas dois dias depois de se matricular é… Ah, eu sabia que você era especial!
Enquanto Isabelle levava a mão ao rosto e tagarelava empolgada, Agatha lançou um olhar para o corredor e levou o dedo aos lábios.
— Minha senhora, shh! Vão ouvi-la no corredor se falar alto demais.
— Ah! Sim, é verdade. Então me perdoe por sussurrar… Mas, de verdade, parabéns. Estou tão feliz como se tivesse acontecido comigo.
Monica, mexendo sem motivo na própria xícara, respondeu com voz fraca:
— Obrigada…
Isabelle levou a xícara aos lábios com graça e tomou outro gole de chá preto antes de oferecer um sorriso elegante. Sua postura agora, assim como aquele sorriso refinado, parecia pertencer a uma pessoa completamente diferente da que acabara de brandir um bicho de pelúcia.
— Minha irmã, se qualquer coisa a incomodar durante sua estadia na Academia, basta me contar. Embora eu esteja atuando como vilã e fazendo um trabalho magnífico ao atrapalhá-la, sempre a apoiarei das sombras.
Atrapalhar e apoiar? O que isso quer dizer…?, pensou Monica, assentindo de forma vaga. A reação de Isabelle à notícia já lhe dera dor de cabeça, mas seus colegas de classe seriam um problema muito mais sério. Se descobrissem que ela havia entrado para o conselho estudantil, o que fariam? Ela começou a tremer, embora não estivesse frio, e tomou mais chá.
Os olhos de Isabelle pararam no cabelo de Monica.
— Pensando bem, seu cabelo… Está diferente de quando a vi antes.
— U-um, foi… Uma garota da minha turma, hum, fez para mim…
— Ficou muito fofo. E combina muito com você! …Agatha, por favor, arrume meu cabelo igual!
— Não podemos fazer isso — advertiu Agatha, sorrindo diante do pedido de Isabelle. — A vilã não pode usar o mesmo penteado da garota que atormenta, como se fossem amigas.
Isabelle gemeu, desapontada.
— Então, nesse caso, faremos isso num feriado, quando ninguém estiver olhando!
— Sim, minha senhora. Quando chegar a hora, farei o possível para deixar as duas com penteados adoráveis e combinando.
Empolgada, Isabelle exclamou:
— Então está prometido!
Enquanto observava aquela troca, Monica pensou em Lana. Isabelle ficara radiante com sua nomeação como tesoureira, mas isso era porque Isabelle era sua cúmplice. A maioria das pessoas acharia que Monica estava se colocando acima do próprio lugar, não acharia? Até Lana, que havia trançado seu cabelo… se soubesse da nomeação, passaria a odiar Monica por se exibir?
…Eu não quero isso.
Do ponto de vista da missão, Monica deveria estar radiante por se tornar membro do conselho. Ela repetia isso para si mesma. Mas, quando imaginava Lana fitando-a com olhos frios, não conseguia sentir alegria alguma.
Como ela previra, no dia seguinte à sua nomeação como tesoureira do conselho estudantil, Monica foi alvo de olhares curiosos desde o momento em que saiu do dormitório. Olhares a seguiram do corredor até a sala de aula. Parecia que a notícia já havia circulado.
Ao se sentar em sua carteira e começar a rearrumar seus materiais sem nenhum motivo, ela pensou nos acontecimentos do dia anterior.
O dia anterior havia sido turbulento, para dizer o mínimo. Elliott a convocara e então ordenara que ela encontrasse o culpado pelo incidente do vaso. Enquanto cumpria essa tarefa, ela caíra escada abaixo e encontrara uma garota belíssima na sala de música. Depois, ao descobrir quem derrubara o vaso e revisar alegremente os registros contábeis do conselho estudantil, de alguma forma acabara nomeada a nova tesoureira.
Como encarregada de proteger Felix, tornar-se tesoureira fora um golpe de sorte incrível. Mas, odiando chamar atenção tanto quanto odiava, Monica simplesmente não conseguia ficar feliz.
Até o dia anterior, seus colegas a viam como uma caipira, e seus olhares eram de escárnio. Agora, porém, ela via claramente a mudança para inveja e malícia. A hostilidade espetava sua pele como facas. As vozes sussurradas vinham tingidas de irritação e zombaria.
Quero ir para casa…, pensou, quase chorando, até que, de repente, alguém tocou seu ombro.
Monica quase saltou da cadeira e começou a tremer. Estava apavorada demais para se virar. Provavelmente iam chamá-la para conversar. Quem quer que fosse pediria para encontrá-la atrás do prédio da escola e então jogaria água em cima dela… Ela já estava prestes a chorar quando a pessoa deu um puxão em uma de suas tranças.
— Ei. Então voltou para o penteado de sempre?
Era Lana, olhando para ela com descontentamento. Como de costume, estava maquiada, com um penteado elaborado e adornos coloridos.
Monica, por outro lado, acordara tão deprimida por ter de ir à aula naquela manhã que não teve ânimo algum para praticar o novo penteado. Em momentos assim, ficava ainda mais descuidada com a aparência, e suas tranças estavam mais desgrenhadas que o normal.
Ao ver Lana franzir a testa, Monica se apressou em pedir desculpas.
— D-desculpe, é que… eu não consegui praticar como, um, queria, e…
— Tem a ver com você ter sido levada para a sala do conselho estudantil ontem?
— ……
— Ouvi um boato de que você virou membro do conselho estudantil. Isso é piada, não é?
Monica havia retirado o broche que indicava sua posição como membro do conselho e o colocara no bolso. Sem perceber, sua mão foi até ele por cima do tecido.
Lana inflou as bochechas, fazendo bico.
— O quê? Não quer mais falar comigo?
— N-não… Não! É que… eu, bem…
Enquanto Monica murmurava, de olhos baixos, Lana continuava encarando-a. Monica tinha certeza de que a deixara irritada e se afundou em tristeza silenciosa.
Então Lana falou de repente:
— …Eu, bem, ontem…
— Hã?
— Não fui eu que empurrei você nem nada, mas fui eu que provoquei a Caroline, então… eu, er… Você não está… machucada, está?
Ah, é verdade.
Monica se lembrou. No dia anterior, fora envolvida na discussão entre Caroline e Lana e acabara caindo da escada. Para ser sincera, entre investigar crimes e revisar todos aqueles livros-caixa, havia se esquecido completamente. Mas parecia que Lana pensara naquilo o tempo todo.
— …Obrig… obrigada. Um, eu não estou… machucada. Estou bem.
Lana soltou um “hmph”. Suas bochechas estavam levemente vermelhas. Como se quisesse disfarçar, empurrou o cabelo cor de linho para trás e tirou um pente.
— Bem, não podemos deixar você assim. Vou ter que arrumar seu cabelo de novo.
— …Hehe.
— Do que você está rindo?! Trate de aprender a fazer isso sozinha logo!
— …Sim. Eu vou.
Monica assentiu, estranhamente feliz.
— Ah? Então foi sua amiga que arrumou seu cabelo ontem?
A voz era suave e doce, e Monica já a ouvira o bastante no dia anterior.
Lana congelou de surpresa. E não foi apenas ela. Todos na sala voltaram a atenção para o recém-chegado.
Monica finalmente se virou, pálida de desespero, e encontrou o olhar de Felix, que estava ali sorrindo. Seus cabelos loiros e macios reluziam à luz da manhã, e seus olhos azuis pareciam cheios de mistério. As garotas da turma começaram a soltar gritinhos diante de sua beleza.
As mais discretas não fizeram barulho, mas ainda assim o encaravam com olhares arrebatados e apaixonados. Lana não foi exceção. Embora estivesse chocada, a beleza de Felix também a havia encantado.
— Bom dia.
— B-bom… bom diah—mph!
— Desculpe aparecer assim tão cedo. Eu queria lhe entregar uma cópia da agenda dos membros do conselho estudantil.
As palavras de Felix provocaram um burburinho ao redor. Até Lana olhou para Monica de olhos arregalados.
…Eu quero desaparecer.
Com o rosto parecendo o de um cadáver, Monica recebeu de Felix a folha em que estava escrita a agenda. Então ele levou o dedo ao colarinho dela.
— Oh? Onde está seu broche? Você o tirou?
— Ah, um, er…
Monica virou o rosto para o lado, tentando fugir da pergunta, mas ele segurou seu queixo e a fez olhar para a frente.
— Que tal tirá-lo daí?
Apavorada, ela pegou o broche de membro do conselho. Ele o tomou de sua mão e o prendeu pessoalmente ao colarinho dela.
— Você precisa usá-lo, está bem? É membro do prestigioso conselho estudantil, então deve sempre parecer uma.
Ah, eu não quero estar no conselho estudantil. Mas, para esta missão de guarda-costas, eu preciso.
Ainda assim, os olhares ao redor eram dolorosos demais.
…Estou com medo!
E agora Felix estava bem ao lado dela. Perto demais. Para tentar fugir da realidade, ela começou a contar os cílios dele. Um, dois, três, quatro… Os cílios eram de uma cor um pouco mais profunda que a dos cabelos e surpreendentemente longos. Quantos palitos de fósforo conseguiriam se apoiar sobre eles? Dois… Não, talvez até três.
Enquanto contava os cílios, começou a pensar ao mesmo tempo em quantos fios seriam necessários para sustentar o peso de um palito de fósforo. A resistência individual de cada cílio, a densidade relativa e o ângulo eram todos importantes.
Quando ela se perdeu naquela fantasia de fuga, os longos cílios diante dela se ergueram, e aqueles olhos azuis brilharam de forma travessa.
— Você está me encarando bastante. Por quê?
— …P-p-p-palitos…
— Hm?
— Eu estava pensando no ângulo ideal dos cílios para sustentar um palito de fósforo!
Todos os colegas que observavam a cena prendendo a respiração congelaram de repente. Lana empalideceu e começou a gaguejar:
— Espere, n-não… Você… sua tola…
Mas Felix apenas riu, os ombros balançando, e soltou o colarinho de Monica.
— Peça à sua amiga para arrumar seu cabelo. Ficou muito fofo ontem. A fita combinou com você.
Ele acariciou de leve o cabelo dela com um dedo e então piscou.
— Vejo você depois das aulas. Na sala do conselho estudantil.
Depois de deixar essas palavras, Felix saiu da sala.
Monica baixou o olhar e soltou um longo suspiro. Estava cansada. Ainda era manhã, e ela já estava tão cansada. Queria voltar para o quarto naquele instante e se esconder debaixo das cobertas…
Enquanto Monica pensava nisso, Lana tirou vários pentes e grampos e os colocou sobre a carteira. Seus olhos praticamente brilhavam.
— U-um…? — disse Monica, assustada, olhando para Lana.
Ofegando de entusiasmo, Lana preparou os pentes.
— Minhas habilidades foram reconhecidas pelo príncipe… Não posso mandá-la até ele com nada menos que uma obra-prima… Prepare-se, porque vou fazer em você o penteado número um mais fofo em alta na capital!
Monica estava sinceramente feliz por Lana não odiá-la agora que ela era membro do conselho estudantil, mas também ficou um pouco assustada com o fogo que ardia em seus olhos enquanto segurava os pentes.
— O de ontem está bom, por favor! — exclamou Monica bem na hora em que o professor, Victor Thornlee, entrou na sala.
Por um instante, ela achou ter visto o olhar dele se cravar nela por trás dos óculos. Monica era especialmente sensível à malícia dos outros, e seus ombros tremeram ao sentir aquilo. O senhor Thornlee desviou os olhos e bateu com impaciência na tribuna.
— Todos, em seus lugares — disse ele. — Tenho um comunicado. Uma aluna da nossa turma, Lady Selma Karsh, voltou para casa por causa de uma doença repentina.
A sala começou a murmurar. Ainda estava fresco na memória de todos que Aaron, noivo de Selma, havia deixado a escola pelo mesmo motivo. Algumas garotas mais inclinadas à fofoca começaram a especular sem freio:
— Ela não estava muito deprimida por causa do que aconteceu com Aaron?
— Não pode ter sido uma tentativa de suicídio, pode?
— Ah, não, que horror!
O senhor Thornlee pigarreou. Depois de olhar ao redor para os alunos, continuou:
— Sendo assim, escolherei uma nova responsável de saúde da turma para substituí-la.
Enquanto ouvia o senhor Thornlee, Monica pensava consigo mesma. Então eles realmente estão mantendo a verdade em segredo dos colegas dela… Mas, nesse caso, por quê…?
Uma pequena dúvida brotou em sua mente. O objetivo era enterrar o escândalo da Academia para que nenhum aluno, exceto o conselho, jamais soubesse.
Então por que Selma Karsh sabia que Aaron O’Brien fora condenado por seus delitos?
Aaron O’Brien estava fora de si quando o levaram, e Selma Karsh estivera em estado semelhante quando insistira na inocência de Aaron. As ações deles simplesmente não se encaixavam, e aquilo deixou Monica terrivelmente curiosa.
As aulas haviam terminado, e Monica estava parada diante da porta da sala do conselho estudantil. Mais uma vez, conferiu a própria aparência. O uniforme estava em ordem, as luvas também, e o cabelo fora devidamente refeito por Lana.
Ela inspirou fundo, soltou o ar, ergueu a mão para bater na porta… e abaixou-a de novo. Já fazia algum tempo que repetia exatamente a mesma coisa. Aquela era a décima respiração profunda até então.
Parada em frente à porta, respirando fundo de novo e de novo, ela era a própria imagem de uma “pessoa suspeita”. Sua missão era eliminar todas as pessoas suspeitas nas proximidades do segundo príncipe, mas, infelizmente, a mais suspeita ali era ela.
Está bem. Desta vez. Desta vez…, pensou, reunindo coragem e erguendo a mão outra vez.
— Hummm, você está bem? — veio uma voz atrás dela.
Monica ficou tão assustada que saltou para a frente e bateu a testa contra a porta. Ai, pensou, segurando a testa e tremendo.
O dono da voz se curvou, pedindo desculpas.
— Opa! Desculpe por assustar você. Um, você estava aí há bastante tempo, apenas respirando, então pensei que talvez não estivesse se sentindo bem…
Quem falava era um garoto de cabelos castanho-claros. Era um pouco baixo e parecia jovem, mas a cor do lenço indicava que estava no mesmo ano que Monica. E, assim como ela, usava um broche do conselho estudantil na lapela.
…Ele também é membro do conselho?
Pensando bem, ela se lembrava de ter visto algumas pessoas na sala de arquivos no dia anterior. Contudo, estivera tão absorvida pelos números que mal olhara para qualquer outra coisa. Começou a remexer os dedos.
O garoto fez uma reverência elegante, digna de um nobre.
— Você é Monica Norton, a nova tesoureira, certo? Sou Neil Clay Maywood, encarregado de assuntos gerais. Prazer em conhecê-la. Nós somos os únicos do segundo ano no conselho, então espero que possamos nos dar bem.
Neil completou com um sorriso tímido. Ele era claramente uma pessoa bondosa. Que alívio, pensou Monica, soltando em silêncio a respiração presa. No fundo, estivera apavorada com a possibilidade de todos os outros membros do conselho a odiarem, mas ali já havia alguém gentil. Talvez eu consiga dar conta, afinal…, pensou, aliviada.
Exatamente nesse instante, uma exclamação furiosa soou atrás deles.
— Quanto tempo vocês pretendem ficar conversando na frente da porta?!
Os ombros de Monica deram um solavanco. Ela se virou e viu Cyril Ashley, o vice-presidente de cabelos prateados, de braços cruzados e olhos fixos nela. Ele ergueu o queixo fino, encarou-a e disse com amargura:
— Monica Norton. Percebeu que essa sua palhaçada prolongada está me impedindo de entrar?
Aparentemente, Cyril a vira respirando fundo várias vezes diante da porta.
— Um, vice-presidente… — arriscou Neil. — O senhor estava observando esse tempo todo?
Cyril lançou um olhar fulminante para Neil, e o garoto, que parecia pouco combativo, fechou a boca depressa. O vice-presidente bufou com desprezo e voltou a olhar para Monica.
— Não sei o que você fez para bajular o príncipe, mas eu, por minha parte, não a reconheço como membro do conselho — rosnou, abrindo a porta.
Neil fez sinal para que Monica entrasse, e ela o seguiu com nervosismo.
Três pessoas já estavam sentadas na sala. Felix, o presidente, ocupava a mesa no centro. Um jovem de olhos caídos estava numa mesa separada de reuniões: Elliott, um dos secretários. Também à mesa de reuniões estava uma bela garota de cabelos loiros, fazendo trabalho administrativo.
Ah, é-ela é…
Aquela beleza intensa era inesquecível. Era a garota que estivera tocando piano na sala de música. Então ela também é membro do conselho…
A bela garota nem olhou na direção de Monica. Apenas continuou movendo a pena em silêncio. Enquanto Monica se perguntava se deveria dizer algo, Felix falou com voz calma:
— Parece que estamos todos aqui.
Com isso, todos naturalmente se dirigiram à mesa de reuniões, deixando vagos os assentos da cabeceira e da ponta oposta. O lugar ao lado de Neil, na ponta, provavelmente era o de Monica. Felix fez um gesto para que ela se sentasse, enquanto ele próprio ocupava a cabeceira.
— Pois bem. Como expliquei ontem, nomeei Lady Monica Norton como nossa nova tesoureira para substituir Aaron O’Brien. Vamos nos apresentar. Eu começo. Sou Felix Arc Ridill, presidente do conselho estudantil.
Depois que Felix disse seu nome, os outros tiveram de seguir o exemplo. O rosto de Cyril se contraiu com amargura quando ele falou:
— …Sou Cyril Ashley, o vice-presidente.
A hostilidade em sua voz era dirigida diretamente a Monica. Ela se encolheu enquanto Elliott erguia uma das mãos de modo casual.
— Eu já me apresentei ontem, mas sou Elliott Howard, um dos secretários.
À primeira vista, sua postura parecia acessível e familiar, mas os olhos caídos a observavam friamente.
Quando Elliott terminou, a bela garota que Monica conhecera na sala de música no dia anterior tomou a vez.
— Sou Bridget Greyham, a outra secretária — disse de forma plana, sem se virar para Monica. Encerrada sua breve apresentação, levou o leque à boca e se calou.
Por fim, Neil se apresentou, um pouco sem jeito, sentado ao lado dela.
— Sou Neil Clay Maywood, encarregado de assuntos gerais… embora eu já tenha me apresentado, ah-ha-ha.
O riso forçado de Neil não fez nada para aliviar a tensão na sala.
Como se quisesse melhorar o clima, Felix continuou:
— Então, por último, Lady Monica Norton. Por favor, apresente-se.
Ah, por que ela continuava tendo de se apresentar ultimamente? Ela era tão ruim nisso. Queria se levantar naquele instante e fugir. Mas, se eu fizer isso, Louis vai me dar uma bronca. Louis vai me dar uma bronca… e ele é assustador, muito assustador…
Ela visualizou Louis Miller em sua mente. O que é isto, minha colega Sábia? Não consegue nem dizer o próprio nome direito? Ha-ha-ha. Sua voz parece o canto de uma cigarra à beira da morte. Desde quando uma cigarra entrou para os Sábios? Se for incompetente demais, todos pensarão que eu também sou incompetente. Se entende isso, endireite a postura e seja humana, Garota Cigarra.
Só de imaginar aquilo, quase começou a chorar. Fungou. Então, com uma voz fraca, apresentou-se:
— …Eu sou… M-Monica Norton…
Ela havia dito. Tinha dito! Gaguejara um pouco, mas saíra muito melhor que o habitual.
Mas alguém à mesa não pareceu concordar.
— Que coisa lamentável.
Era Bridget, a secretária. Ela fixou seus olhos âmbar em Monica e, mantendo o leque diante da boca, continuou:
— Jamais ouvi falar de uma integrante do conselho estudantil incapaz de dizer o próprio nome corretamente.
Enquanto os ombros de Monica tremiam, Bridget voltou seu olhar frio para Felix.
— Sua Alteza Real, questiono a qualificação desta garota para se apresentar diante dos outros. Peço que reconsidere antes que isso prejudique a reputação deste conselho.
Como sempre, o sorriso de Felix era gentil. Seus olhos se estreitaram um pouco, quase divertidos.
— Minha escolha não a satisfaz?
— Não satisfaz.
Bridget assentiu. Estava firme, aparentemente sem sentir necessidade de temer ou bajular o príncipe.
— Não há outros aqui que pensem o mesmo?
Cyril foi o primeiro a reagir. Levantou-se, cerrou o punho e expôs seu argumento.
— Senhor, sou da mesma opinião que a secretária Greyham. Por favor, reconsidere! Colocar ao seu lado alguém que o desrespeitou é simplesmente…
Elliott observava o discurso inflamado de Cyril com diversão, enquanto Neil parecia sem saber o que fazer. Durante tudo isso, porém, o sorriso calmo de Felix não vacilou. Mas, embora seus lábios sorriam, os olhos azuis brilhavam friamente.
— Se Lady Norton cometer algum tipo de má conduta — disse Felix —, a responsabilidade será minha por tê-la nomeado. Caso isso aconteça, dou minha palavra de que renunciarei ao cargo de presidente do conselho estudantil.
A declaração chocou os outros membros do conselho, mas quem mais se surpreendeu foi, sem dúvida, Monica.
Es-es-es-es-es-es-es-espere! Espere, espere, espere!
Para ser sincera, ela não conseguia se imaginar não cometendo erros. Com certeza cometeria. Ela sabia disso. Fora dos números, era inútil. Um fracasso, pior que medíocre.
Enquanto estava sentada ali, começando a tremer, Felix bateu palmas de leve.
— Acho que isso encerra o assunto. Cyril, gostaria que você ensinasse a Lady Norton as funções de tesoureira imediatamente.
Cyril abriu a boca para falar, com a insatisfação evidente no rosto. Mas engoliu a objeção e assentiu a contragosto.
— …Como desejar, senhor.
Ao erguer a cabeça, lançou um olhar fulminante para Monica. Seus olhos cintilavam de hostilidade.
De todas as pessoas, por que justo ele vai me ensinar o trabalho?!
Tremendo violentamente, Monica olhou para Felix.
— C-c-c-com licença, com licença… Por-por que o vice-presidente?
— Cyril foi tesoureiro antes de assumir o cargo atual.
Felix fez uma pausa, observando o rosto de Monica de um jeito que parecia divertido.
— Por acaso queria que eu a ensinasse?
— Não, eu só estava, um, pensando que talvez alguém, hum, mais próximo da minha idade…
Em outras palavras, Neil, aquele que parecia mais agradável e inofensivo.
— Entendo — disse Felix, abrindo um sorriso gentil. — Cyril não vai deixar você relaxar no trabalho.
Monica gemeu baixinho.
— O começo e o fim do mês são os períodos mais ocupados para um tesoureiro — disse Cyril. — Fiz uma lista de todas as suas responsabilidades, então é melhor memorizá-la.
A atitude de Cyril Ashley em relação a Monica era abertamente agressiva, mas ele explicava bem suas tarefas. Havia uma coisa, porém, que a deixava curiosa: ele colocara um copo grande sobre a mesa. Entre uma parte e outra da explicação, entoava um encantamento curto e deixava cair um ou dois pedaços de gelo no copo vazio.
Era compreensível que Monica ficasse curiosa. Por isso, quando a explicação de Cyril chegou a uma pausa, ela perguntou nervosamente:
— U-um… Esse gelo… Para que… você usa?
— Para enfiar na sua boca toda vez que cometer um erro.
— Eep.
Cyril mexeu no broche, talvez por hábito nervoso, e deixou outro pedaço de gelo cair no recipiente.
De repente, Monica percebeu algo. Sentia um frio ao redor de Cyril, o tipo de frio que vinha da mana de gelo. Mas o frio era suprimido enquanto ele criava os pedaços de gelo.
Espere… Será que é por isso que ele faz isso?
Depois de terminar a explicação do básico, Cyril balançou um pouco o copo cheio de gelo e bufou, parecendo descontente.
— Hmph. Se você fosse lenta para aprender, eu teria enfiado isto direto na sua boca… mas parece que não será necessário.
Aquilo era a versão de Cyril de uma aprovação?
— Se tem tempo para se distrair, use-o olhando os documentos.
— S-sim, senhor, desculpe…!
Atrapalhada, Monica começou a examinar os papéis. A tarefa em si não era muito complicada. Antes de vir para cá, já trabalhara com registros financeiros, receitas e despesas, variações de vendas de produtos e relatórios populacionais. Se envolvia números, ela já havia lidado com aquilo. Comparado a tudo isso, aquele trabalho não era grande coisa.
Enquanto lia os documentos, lançou um olhar furtivo para Cyril. Durante a explicação, ele estivera reunindo os registros contábeis antigos.
— U-um, esses são… os registros que, hum, eu revisei? — perguntou timidamente.
Cyril fungou.
— Sim. Estou juntando todos para o senhor Thornlee revisar hoje à noite. Ele concordou em examiná-los durante o plantão noturno.
— D-desculpe! — Monica se desculpou por reflexo.
Ele franziu a testa, confuso.
— Pelo que está se desculpando?
— V-você tem mais, um, trabalho desnecessário por causa de, hum, eu ter revisado… todos os registros antigos, não tem?
No dia anterior, Monica ficara tão feliz por trabalhar com números de novo que revisara todos os documentos antigos. Por isso, agora se sentia mal por dar mais trabalho a Cyril e ao senhor Thornlee.
Cyril a encarou.
— Isto não é trabalho desnecessário. É bastante necessário. Por que você é tão tímida o tempo todo?
— U-um, hum… Eu, bem…
— Você já conquistou a confiança do príncipe, sabe. Pode se orgulhar disso. Por que insiste em ser tão excessivamente humilde?
Aquelas eram palavras que Monica estava acostumada a ouvir.
Por que se rebaixa tanto?
Você deveria se orgulhar de seus talentos.
Se você se menospreza, o que as pessoas menos habilidosas deveriam pensar?
Todas as pessoas que Monica conhecia já haviam lhe dito algo assim. E suas expressões deixavam claro que tinham dificuldade de entender. Exatamente como Cyril agora.
— O príncipe escolheu você. Reconheceu seus talentos. Por que não se orgulha disso?
Não seja humilde demais. Não se rebaixe. Tenha confiança. Você é talentosa…
Quando aprendeu a usar magia sem encantamento, ouvira esse tipo de coisa sem parar.
Mas Monica jamais, jamais conseguiria assentir e aceitar.
Ela não rejeitava aqueles que tinham orgulho de si mesmos. Ter orgulho de algo era bom. Era maravilhoso conseguir confiar nos próprios talentos. Se Monica pudesse fazer isso, teria feito.
Mas não podia. E não conseguia.
— Desculpe… — murmurou, balançando a cabeça devagar. — Eu simplesmente não consigo… não consigo ter orgulho de mim mesma… de jeito nenhum. Eu só… não consigo.
Quando frequentara Minerva, havia apenas uma pessoa que ela podia chamar de amiga. Um jovem que sempre tentava ajudar a tímida Monica. Ele praticava encantamentos com ela, já que ela não conseguia falar direito diante dos outros. Aquilo deixava Monica feliz.
…Mas, quando ela aprendeu a conjurar sem entoar encantamento e começou a ser exaltada como gênio, aquela amizade se desfez.
Você sempre me olhou de cima, não foi?
Não, ela dissera. Não. Mas suas palavras não o alcançaram.
Monica se formara em Minerva e se tornara integrante dos Sete Sábios sem jamais se reconciliar com ele. Mesmo agora, aquilo continuava sendo uma lembrança amarga, um caroço preso em seu coração.
Enquanto ela mantinha a cabeça baixa, o rosto de Cyril se endureceu numa carranca, e seus lábios se curvaram em desagrado.
— Eu odeio a palavra não consigo.
— …Desculpe.
Diante da censura de Cyril, Monica só pôde baixar os olhos e se desculpar.
Alguém dissera certa vez que talento podia ser uma maldição. Para Monica, era exatamente assim. Ele tirara dela tudo que queria: tanto seu pai quanto seu amigo.
— …Ah, e sobre outro assunto — comentou Cyril casualmente, enquanto Monica se enrijecia, temendo o que viria a seguir.
— É sobre como você caiu do patamar da escada ontem.
— …Ah, isso, hum…
Caroline e Lana haviam discutido, e Caroline empurrara Lana contra Monica. Mas Monica achara que a questão estava resolvida depois de dizer que havia caído por acidente. Talvez Cyril pretendesse repreendê-la por sua falta de cuidado. Ela estremeceu.
A expressão de Cyril ficou severa.
— Questionei os alunos que estavam por perto na hora e compreendi a situação. Ordenei que Caroline Simmons, a agressora, entregasse uma carta de desculpas e lhe dei uma advertência rigorosa.
— …Hã?
Os olhos de Monica se arregalaram. Ela não entendia do que Cyril estava falando. Caroline era filha de uma família nobre de elite. Por isso estivera tão confiante naquele momento. Sabia que seu status social a tornava imune a críticas. Se Monica tentasse acusá-la, Lana acabaria levando a culpa. Fora por isso que Monica desistira de contar a verdade e tentara resolver tudo dizendo que a queda fora culpa dela.
— …Você questionou… eles?
— De que outra forma eu teria uma compreensão precisa e objetiva da situação?
Cyril agia como se ela tivesse perguntado quanto era dois mais dois.
— De todo modo, da próxima vez que algo assim acontecer, dê um relato verdadeiro e preciso! Sua péssima tentativa de mentira me deu mais trabalho! Nada de relatórios falsos!
Monica ficou de boca entreaberta, encarando Cyril sem expressão. Não imaginara que alguém fosse ouvi-la, não importava o que dissesse. Por isso desistira imediatamente e se calara.
Então existem pessoas assim…
Surpresa e de certo modo aliviada, olhou para Cyril.
Ele ergueu as sobrancelhas enquanto continuava a encará-la.
— Está me ouvindo, Monica Norton?!
— Ah, um, sim… Eu, b-bem…
Enquanto mexia os polegares e tentava gaguejar as próximas palavras, alguém tocou o ombro de Monica.
— Como estão as coisas aqui?
Ela olhou para trás e viu Felix sorrindo agradavelmente.
Cyril respondeu de imediato e com concisão:
— Expliquei todas as tarefas habituais, incluindo as do começo e do fim do mês. Resta apenas explicar os eventos escolares.
— Ah, sim. Temos o torneio de xadrez e o festival escolar antes das férias de inverno. Você pode explicar esses assuntos a ela aos poucos.
— Sim, senhor.
Cyril assentiu.
Felix olhou de relance para o copo sobre a mesa e o pegou casualmente. Os pedaços de gelo tilintaram uns contra os outros. Depois de um momento, ele disse:
— Você não está se sentindo bem, Cyril?
— Nenhum problema, senhor.
— Oh? Bem, tudo bem… Mas não exagere.
Do que eles estavam falando?
Quando Lorde Ashley cria gelo, isso significa que ele não está se sentindo bem?, pensou ela. O frio que ele emanava naturalmente, o gelo que fazia questão de criar e colocar no copo, o broche no qual mexia como um tique nervoso…
Na verdade, Monica tinha uma hipótese que explicava tudo.
Espere, será que ele…?
Enquanto encarava o broche de Cyril, dedos surgiram de lado e cutucaram seu rosto. Ela olhou e viu Felix apertando sua bochecha, aparentemente se divertindo.
— Não olhe só para Cyril. Olhe para mim também.
— Eu… E-e-eu s-sin…
— Como ousa! Sua atitude mancha a honra de Sua Alteza Real!
— S-s-s-sinto… — gaguejou Monica, quase chorando.
Cyril bateu o punho na mesa.
— Fale com clareza!
— Eu! Eu sinto! Eu… sinto…
— Não me lembro de ter pedido para falar em staccato!
— Cyril, por favor, não implique demais com ela, sim? — repreendeu Felix enquanto Cyril gritava, furioso.
A expressão de Cyril se afiou.
— Não estou implicando com ela, senhor! Isso é disciplina!
— Disciplina é trabalho do dono, certo? Então é meu trabalho.
Monica sentiu como se ele tivesse acabado de arrancar casualmente seus direitos humanos. Por enquanto, decidiu fugir da realidade contando os cílios de Felix. Anterior Próximo 🛒
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