Vol. 1 Cap. 9 Uma Visitante à Meia-Noite e um Cabra Feliz junho 6, 2026
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Meta 06/2026 (39,00%)Postado por miggigibe, ? Visualizações, Lançado em junho 6, 2026 Anterior ÍndicePróximo PDF
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Tradutor/Revisor: miggigibe
Depois de terminar o jantar no dormitório, Monica voltou para o quarto no sótão e se sentou na cama.
— Estou tão cansada… mas preciso me trocar…
Com movimentos lentos, levantou-se de novo, tirou o uniforme e desamassou-o antes de pendurá-lo. Depois vestiu o manto com capuz. Aproveitando, talvez também devesse soltar o cabelo e refazê-lo em duas tranças soltas.
Ela estendeu a mão para a fita, mas acabou deixando-a onde estava. Em vez disso, passou os dedos pelo penteado que Lana fizera com tanto capricho.
Agora que Monica era membro do conselho estudantil, seus colegas a olhavam de outro jeito. A maioria dos olhares era de inveja ou suspeita, perguntando-se como e por que uma garota como ela havia sido escolhida. Mas Lana não a odiava. Continuara falando com Monica do mesmo jeito de sempre.
…E só isso já era suficiente para deixar Monica muito feliz.
Seria um desperdício desfazer agora, pensou, decidindo deixar o cabelo daquele jeito até a hora do banho. Deixou-o como estava e caiu de bruços na cama.
Um instante depois, ouviu-se um barulho na janela: Nero. Depois de entrar no quarto, ele usou educadamente a pata dianteira para fechar a janela atrás de si.
— Bom trabalho hoje, Monica.
Ele pulou sobre as costas de Monica, que continuava deitada de bruços, e pressionou as patas dianteiras contra suas omoplatas. A pressão era um pouco fraca para uma massagem, mas o toque macio das almofadinhas era agradável. Entregue àquela sensação, Monica fechou os olhos e suspirou.
— Como foi seu primeiro dia no conselho estudantil? — perguntou ele.
— …Lorde Ashley… garantiu que eu não ficasse enrolando…
— Ashley? Ah, lembrei. Aquele sujeito gelado que fica sempre perto do príncipe, berrando com todo mundo, não é? Aquele que não para de deixar mana de gelo escapar. Eu sei tudo sobre o príncipe e sobre todo mundo ao redor dele! Incrível, né?
— …Mas os nomes, não.
— Sou péssimo em lembrar nomes humanos. Então, de qualquer forma, ele pegou pesado com você? Foi pior que Lou-lou-lou Lounpappa?
Ao que tudo indicava, Nero não tinha a menor intenção de aprender o nome de Cyril nem o de Louis. Monica abriu um sorriso sem graça e respondeu:
— Hm… Eu diria que Lorde Ashley é cerca de… cem vezes menos rigoroso que o senhor Louis.
— O que aquele sujeito é? Um demônio?
O jeito de Cyril falar era duro e exaustivo, mas a instrução dele fora cordial. Ele havia preparado uma lista com tudo de que ela precisaria e, quando ela não entendia alguma coisa, explicava com paciência. Comparado a ele, Louis é… Ela se lembrou daqueles dias de pesadelo sob a orientação dele e murchou na mesma hora. Então, ouviu uma batida na janela.
Monica virou a cabeça para olhar e viu um pássaro pousado no peitoril. Era uma ave pequena e bonita, de plumagem amarela e verde-clara. Seria um animal ornamental que fugira de algum senhor nobre?
O pássaro continuou bicando o vidro com o bico e não demonstrou medo nenhum quando Nero se aproximou. Seguindo um palpite, Monica abriu a janela. A ave entrou voando no quarto, deu uma volta pelo cômodo e pousou no chão. Pouco depois, pequenas partículas de luz surgiram ao redor dela, e sua forma se transformou na de uma mulher vestida de criada.
— Você é, um… a criada do Louis…
A criada pinçou a barra da saia e fez uma mesura. Então, com voz monótona, disse:
— Sou eu, Rynzbelfeid, espírito contratado do Mago das Barreiras, Louis Miller. Por favor, chame-me de Ryn.
Monica endireitou as costas sem perceber. Afinal, ela e Nero tinham acabado de falar sobre Louis ser um demônio.
Louis provavelmente enviara Ryn, seu espírito contratado, para receber um relatório sobre o andamento da missão.
— U-um, é… você quer um relatório sobre a, um… missão, certo?
— Sim, mas antes preciso entregar uma mensagem urgente de Lorde Louis.
Uma mensagem urgente? Isso significava que era algo que ela precisava ouvir imediatamente. O que será? pensaram os dois, prendendo a respiração.
Ryn abriu a boca, ainda sem nenhuma expressão.
— Eu, Louis Miller, estou prestes a…
— P-prestes a…? — repetiu Monica.
— …ser pai.
Monica ficou sem palavras.
— E quem liga para isso?! — gritou Nero. — Por que isso é importante?! É só uma mensagem pessoal!
Nero começou a socar o chão com a pata dianteira, mas Ryn não pareceu se abalar.
— Sim — continuou ela. — A esposa dele está grávida, e Lorde Louis é agora um cabra muito feliz.
— …S-sujeito? — repetiu Monica. Ela não estava acostumada a ouvir aquela palavra.
— Sim. Um cabra feliz — repetiu Ryn, séria. — Aparentemente, nas regiões ocidentais do reino, “cabra” é outra palavra para “homem”. Assim, um “cabra feliz” é um homem transbordando alegria.
— E-entendo…
— Eu queria usar essa expressão desde que a encontrei em um livro. Estou profundamente emocionada por finalmente ter tido a oportunidade.
Ela dizia estar emocionada, mas seu rosto continuava impassível como sempre. Monica nunca sabia dizer se Ryn estava brincando.
— U-um… Bem… Por favor, diga ao senhor Louis e à esposa dele, um… parabéns.
— Esta é a sua chance de ficar com raiva, Monica! Aquele mago perverso obrigou você a fazer essa missão difícil e agora está se divertindo! Pode ficar furiosa à vontade! — gritou Nero, erguendo as patas para dar ênfase.
Mas Monica, sinceramente, desejava o bem deles. Louis à parte, sua esposa, Rosalie, cuidara muito bem de Monica durante sua estadia na casa dos dois.
— Transmitirei a mensagem — disse Ryn, assentindo, antes de tirar uma folha de papel de algum lugar nas roupas. — Agora que a questão principal foi resolvida, eu…
— Espera! Essa era a questão principal?! — exclamou Nero.
Ryn o ignorou e abriu a folha sobre a escrivaninha. Nela havia uma mensagem rabiscada na letra de Louis.
“Cara Bruxa Silenciosa. Estou plenamente ciente da sua incompetência no que diz respeito a relatórios orais. Por favor, registre quaisquer informações importantes nesta folha e devolva-a a Ryn.”
Seu colega Sábio a conhecia bem. Se tivesse de fazer o relatório oralmente, ela teria esquecido metade dos detalhes importantes.
— Serei sua pomba-correio durante a missão. Se tiver relatórios ou mensagens para Lorde Louis, escreva-os e entregue-os a mim. Garantirei que sejam entregues imediatamente.
— …U-um, e se não houver nenhuma notícia em especial para relatar?
— Então permanecerei aqui até haver.
— V-vou começar agora mesmo!
Aflita, Monica levou a lamparina até a escrivaninha. Felizmente, tinha muita coisa a relatar: como resolvera o incidente do vaso de flores e fora nomeada para o conselho estudantil. Ambos eram desenvolvimentos importantes para a missão, então provavelmente podia incluí-los com certo orgulho.
Ah, e isto… E aquilo… Cada vez mais coisas lhe vinham à mente.
Enquanto pensava no que escrever, os bigodes de Nero tremeram, e ele se virou para a janela.
— Ei, Monica — disse ele. — Tem alguma coisa fria atrás do dormitório masculino.
— …Hã?
Monica ficou confusa, sem entender o que ele queria dizer. Então Ryn interveio:
— Estou detectando mana de gelo atrás do dormitório masculino. Parece ser um vazamento descontrolado de mana, não o uso consciente de artes mágicas.
Monica teve um mau pressentimento. Um arrepio percorreu sua espinha. As palavras mana de gelo a fizeram pensar imediatamente no vice-presidente do conselho, Cyril Ashley.
— …U-um, Ryn, você disse que o sinal vem de fora do dormitório, certo? Não de dentro?
— Sim. Vem de fora e se afasta lentamente dos dormitórios.
Se aquele sinal vinha de Cyril, isso significava que um estudante sério como ele havia saído escondido do dormitório tão tarde da noite? De qualquer forma, como guarda-costas do segundo príncipe, ela não podia ignorar incidentes incomuns perto do dormitório masculino.
— Eu… eu vou dar uma olhada…
— Espera aí, Monica. Como você pretende sair do dormitório feminino? Você não consegue usar magia de voo, consegue?
— Ack!
Nero tinha razão. Magia de voo exigia bom senso de equilíbrio, além de excelente controle de mana, o que a tornava muito difícil para Monica, cujas habilidades motoras eram desastrosas. Veteranos experientes podiam voar livremente pelo céu, mas ela, no máximo, conseguia saltar um pouco mais alto.
Enquanto Monica encarava a janela com inquietação, Ryn fez uma sugestão modesta.
— Nesse caso, deixe comigo. Como espírito do vento, magia de voo é minha especialidade.
Pensando bem, fora Ryn quem a levara de sua cabana na montanha até a capital real. Ela é tão confiável!, pensou Monica, olhando para Ryn com admiração.
Já com um pé sobre o peitoril da janela, Ryn disse:
— Quanto ao método de pouso, elaborei recentemente algo novo chamado pouso furacão. Recomendo muito, pois oferece a chance de experimentar as maravilhas da força centrífuga com o corpo inteiro.
— I-isso, um… Você está… brincando, certo? — perguntou Monica, cautelosa.
— ……
Ryn encarou-a sem dizer uma palavra. Seus olhos, da cor da relva nova, estavam límpidos. Tão límpidos, na verdade, que Monica ficou um pouco assustada.
Agarrando Nero e apertando-o contra o peito, ela gritou:
— Por favor, só faça de um jeito seguro!
Felix estava sentado em seu quarto no dormitório, tomando chá preto. Seu espírito, Wildianu, estava no momento na forma de um lagarto branco. Ele pôs a cabeça para fora do bolso de Felix e disse:
— Meu senhor?
Felix pousou a xícara no pires e deixou Wildianu subir em seus dedos.
— …É Cyril?
— Sim. Sinto uma mana de gelo poderosa do lado de fora do dormitório.
— Consegue determinar a localização exata?
— …Peço desculpas, meu senhor. Só consigo indicar a direção geral.
Wildianu soou contrito, mas não havia nada que pudessem fazer. Sua especialidade como espírito da água eram ilusões e distrações, e suas habilidades de detecção eram limitadas.
— O que faremos, então? Não posso simplesmente deixá-lo assim… Talvez eu vá verificar.
Felix se levantou, vestindo a jaqueta que estava pendurada no encosto da cadeira.
Minha cabeça… dói…
Do lado de fora do dormitório masculino, via-se a figura de um jovem caminhando com passos instáveis. Era esguio, usava o uniforme da Academia Serendia e tinha longos cabelos prateados que brilhavam à luz da lua. Era o vice-presidente do conselho estudantil, Cyril Ashley.
Suas faces claras estavam cobertas por um suor doentio. Franzindo o rosto de dor, ele se afastou do dormitório e entrou na floresta ao lado.
— …Urgh, ah…
Latejo. A cada vez que uma dor aguda atravessava sua cabeça, a mana em seu corpo saía de controle. Cyril rapidamente entoou um encantamento e pôs a mão em uma árvore próxima. No mesmo instante, a árvore foi coberta de gelo.
Cyril Ashley sofria de uma condição conhecida como hiperabsorção de mana.
Humanos possuem um recipiente para armazenar mana. Quando essa mana se esgota, como ao usar artes mágicas, o recipiente se reabastece lentamente, absorvendo mana de fora do corpo. No entanto, humanos não são capazes de armazenar mais mana do que o recipiente comporta. Uma vez cheio, o corpo rejeita qualquer mana adicional e para de absorvê-la.
Mas esse não era o caso de Cyril. Mesmo depois que seu recipiente se enchia, seu corpo continuava acreditando que mais mana era necessária e seguia absorvendo. Essa condição era chamada de hiperabsorção de mana. O excesso de mana podia danificar o corpo e causar envenenamento por mana. Por isso, de tempos em tempos, ele precisava liberá-la.
Gemendo, Cyril agarrou o broche no pescoço, que prendia sua gravata. O broche era, na verdade, um item mágico que expulsava à força o excesso de mana em seu corpo. Com a ajuda dele, Cyril deveria conseguir levar a vida cotidiana sem problemas. Mas, desde o dia anterior, vinha se sentindo mal.
Se usasse artes mágicas, a quantidade de mana em seu corpo diminuiria. Isso o aliviaria por algum tempo, mas logo seu corpo começaria a absorver mais.
A absorção também parecia estar acontecendo muito mais rápido do que o normal. Rápido demais. Não importava quantos feitiços lançasse, ele simplesmente não conseguia esgotar a mana. Na verdade, parecia absorvê-la mais depressa do que era capaz de gastá-la.
Ele caiu de joelhos, encolheu-se e agarrou o broche mágico como uma tábua de salvação. Fora o marquês Highown quem lhe dera aquilo. Era seu tesouro.
Cyril não viera originalmente da família do marquês. Como o marquês Highown tivera apenas uma filha, escolhera Cyril, o mais talentoso entre seus parentes distantes, e o adotara.
Embora a família de Cyril tecnicamente compartilhasse o sangue do marquês Highown, sequer possuía título nobre. Estava no mais baixo dos baixos. Ainda assim, Cyril fora escolhido. Só podia haver um motivo: seu talento.
Cyril, que vivera preso em sua cidade, frequentando a escola local, sentira orgulho por ter sido escolhido graças ao próprio talento. Entrara na casa de Lorde Ashley cheio de orgulho e alegria. O que encontrou ao chegar foi a filha do marquês, sua meia-irmã mais nova.
A Casa Highown era chamada de Linhagem dos Sábios. Sua nova irmãzinha possuía uma inteligência vasta, digna de tal apelido. Ela era muito, muito mais talentosa do que Cyril.
Então por que ele havia se tornado filho adotivo do marquês?
À beira de perder o próprio senso de propósito, ele se lançou desesperadamente em todos os campos de estudo existentes. Mas, por mais que se esforçasse, nunca conseguia reduzir a distância entre os dois. Na verdade, quanto mais aprendia, mais percebia o tamanho daquele abismo.
Decidindo criar uma arma só sua, estudou artes mágicas. No entanto, foi derrubado pela própria prática imprudente e pela doença de hiperabsorção de mana que ela lhe causou.
Quanto mais lutava, mais se afastava do ideal que buscava. Isso o deixava desesperançado. Foi então que seu pai adotivo, o marquês Highown, lhe deu aquele broche mágico.
Se o mantivesse consigo, a hiperabsorção de mana seria suprimida. Foi isso que o marquês lhe dissera ao presenteá-lo. Para Cyril, aquilo pareceu o marquês o aceitando, reconhecendo seu lugar na família. Ele ficara radiante. Queria corresponder às expectativas do marquês. E, mais do que qualquer outra coisa…
Eu quero… acreditar em mim mesmo.
Cyril não tinha tempo para ficar se arrastando daquela forma. Mas, apesar de seus desejos, seu corpo continuava absorvendo mana. Ele entoou rapidamente um encantamento e liberou um feitiço de gelo. O chão diante dele congelou, mas assim que sentiu um leve alívio físico, seu corpo começou a absorver mana outra vez.
Sua taxa de absorção de mana já havia mudado quando ele ficava doente, mas aquele ritmo era anormal.
Por quê? Por quê? Por quê…?! Preciso entoar outro encantamento para usar outro feitiço, pensou, antes que a cabeça latejasse de novo.
Seu pulso começou a oscilar, e sua respiração ficou áspera. Não conseguia entoar encantamento daquele jeito. Não conseguia usar artes mágicas.
— Ah… guh…
Cyril cravou as mãos no chão, o corpo convulsionando, coberto por um suor frio.
Por fim, tudo escureceu, e sua consciência começou a se apagar.
Mas, antes de desmaiar por completo, ouviu o miado de um gato.
Com a ajuda da magia de voo de Ryn, ela, Monica e Nero escaparam do quarto de Monica no dormitório. A partir dali, seguiram o rastro de mana de Cyril até a floresta, onde o encontraram sob uma árvore. Ele se contorcia de dor, disparando feitiços de gelo ao acaso. Estava claro que não passava bem.
Ryn inclinou a cabeça em um gesto de confusão, embora seu rosto continuasse impassível.
— Eu não sabia que os estudantes de hoje praticavam artes mágicas em segredo no meio da noite. Que diligência.
— Não, um… Acho que Lorde Ashley está sofrendo envenenamento por mana, um… por causa da doença de hiperabsorção de mana.
— Envenenamento por mana? — repetiram Ryn e Nero juntos. Nenhum dos dois parecia conhecer o conceito.
— B-bem, o corpo humano tem baixa resistência à mana em comparação com espíritos ou dragões. Então, se absorve demais, fica doente… Isso se chama envenenamento por mana… No pior dos casos, pode resultar em morte.
Monica já vira várias pessoas com os mesmos sintomas antes, quando frequentava o Instituto Minerva de Formação de Magos. A hiperabsorção de mana era dividida em cinco estágios de acordo com a gravidade, e os sintomas de Cyril pareciam indicar que ele estava no mais alto deles.
— Alguém como Lorde Ashley, que naturalmente absorve mana com facilidade, provavelmente usa artes mágicas com frequência para reduzir o estoque de mana, ou então usa um item mágico que absorve o excesso por ele…
Isso explicaria por que Cyril convertia mana em ar frio regularmente e a liberava, e por que estivera enchendo aquele copo com pedaços de gelo. Era assim que expulsava o excesso de mana do sistema. O fato de ficar mexendo no broche no pescoço provavelmente significava que aquilo era um item mágico para absorver mana.
Depois de ouvir a explicação de Monica, Ryn formou um círculo com o polegar e o indicador e espiou Cyril através dele.
— Consigo ver o fluxo de mana. O broche dele está coletando a mana expelida pelo corpo e devolvendo-a.
— Eu sabia…! O item mágico está com defeito…!
O item estava fazendo o oposto do que deveria fazer. Eles precisavam tirar o broche dele o quanto antes.
Mas, se Monica se aproximasse, ele provavelmente perguntaria o que ela estava fazendo ali. Ela estava com o capuz do manto erguido, mas isso não seria o suficiente para enganá-lo se chegasse perto o bastante para tocar o broche.
Enquanto ela hesitava, Nero soltou um miado heroico.
— Deixa comigo!
Nero saltou para fora das árvores e pulou em cima de Cyril, agarrando com a boca o broche no pescoço do rapaz.
— O quê? Um gato…?! Pare… Não toque nisso!
Cyril balançou os braços, tentando resistir, mas Nero se esquivou com facilidade e arrancou o broche antes de saltar para longe.
— Devolva… Devolva isso! — gritou Cyril, histérico, os olhos injetados, antes de entoar rapidamente um encantamento.
Um instante depois, uma parede de gelo bloqueava o caminho de Nero.
Urgh?! Atordoado, Nero mudou de direção e tentou fugir para dentro da floresta, mas a parede de gelo se expandiu rapidamente e bloqueou esse caminho também. Quando percebeu, a parede havia cercado ele e Cyril.
Ah, droga… E eu odeio frio!
— Devolva… Devolva isso… — Cyril se aproximou de Nero, os olhos vermelhos. Entre uma respiração irregular e outra, Nero conseguia ouvir gemidos ocos. — Isso… meu pai… me deu… Preciso que ele… me aceite… me reconheça…
Seus olhos estavam turvos de obsessão e haviam perdido a luz da razão.
Nero não pôde evitar sentir pena do garoto. Por que humanos são todos tão idiotas? pensou. Sabia que aquele humano provavelmente tinha os próprios motivos para estar tão apegado ao broche. Mas esses motivos não tinham nada a ver com Nero.
Cyril entoou rapidamente um encantamento. Mais de uma dúzia de flechas de gelo surgiu no ar ao redor dele, flutuando. Cada uma tinha a espessura do braço de uma pessoa. Eram mais estacas do que flechas. De qualquer forma, ser atingido por uma daquelas doeria. Muito.
— …Por quê…?
Suas belas feições se retorceram de dor e algo que parecia tristeza.
— Por que… você não me reconhece… mãe…?
De repente, a parede de gelo desabou sem fazer som. Ela, junto das flechas de gelo que flutuavam ao redor dele, foi envolvida por chamas e queimou. O gelo que ele produzira derreteu em segundos, e as chamas que o derreteram, como se possuíssem vontade própria, reuniram-se em um único ponto até se transformarem em uma grande serpente flamejante.
Do outro lado da parede de gelo destruída estava uma pequena bruxa, o capuz puxado baixo sobre os olhos, com a lua branca às suas costas.
Era a mestra da magia sem encantamento e integrante dos Sete Sábios: Monica Everett, a Bruxa Silenciosa.
Embora o sangue da Casa Highown corresse nas veias do pai de Cyril, ele não possuía título nobre, e a família estava longe de ser abastada. Ainda assim, o pai era cheio de orgulho por sua ligação com a nobreza, recusava-se a encontrar um trabalho decente e tratava a mãe de Cyril com arrogância.
Cyril odiava aquilo e sempre ficava do lado da mãe. Fazia tudo o que podia para tentar deixá-la feliz. Mas, sempre que sua mãe olhava para ele, para aquele rosto nobre tão parecido com o do pai, ela franzia a testa com tristeza e desviava os olhos.
Por fim, o pai dele se afogou em álcool e morreu. Foi mais ou menos nessa época que alguém da Casa Highown veio falar com Cyril sobre uma possível adoção.
Cyril pulou de alegria. Poderia facilitar a vida da mãe! Poderia fazê-la feliz!
Ao ver a felicidade inocente do filho, sua mãe soltou um suspiro e disse:
— Você realmente é um nobre, como eu imaginava.
Não. Mãe, eu sou* seu *filho.
Mas ele não conseguiu dizer essas palavras, por mais que tentasse.
Diante de Cyril havia uma figura encapuzada. A figura era pequena. Ele não conseguia imaginá-la como um adulto. Mas, quando a pessoa ergueu o braço direito, a serpente flamejante que derretera sua parede de gelo se enroscou ao redor dela.
O gato preto que roubara o broche de Cyril soltou um miado antes de correr até a figura encapuzada. A pessoa pegou o gato no colo e então tirou o broche da boca dele.
— …Esse gato pertence a você? — rosnou Cyril.
A figura encapuzada, porém, não olhou para ele. Estava concentrada no broche.
Aquela atitude deixava Cyril cada vez mais irritado.
— Devolva esse broche! — exclamou, entoando um encantamento em sua fúria. Era um feitiço para criar correntes de gelo.
Quando Cyril estalasse os dedos, suas correntes de gelo se prenderiam com força aos membros da figura encapuzada. Mas, um instante depois, as correntes se despedaçaram.
— …Hã?
A figura encapuzada não havia feito nada. Nem sequer entoara encantamento. Ainda assim, as correntes de gelo se estilhaçaram como vidro frágil, seus fragmentos brilhando enquanto se espalhavam pelo chão.
Pensando ter cometido algum erro na fórmula, Cyril entoou o feitiço uma segunda vez. Mas o resultado não mudou. As correntes desabaram assim que se materializaram.
— Por quê? Por quê…? Você… Isso é obra sua?
A figura encapuzada permaneceu em silêncio e continuou encarando o broche, como se Cyril nem merecesse um olhar.
…Era assustador.
— Responda! — exigiu ele, criando flechas de gelo e disparando-as contra a figura encapuzada.
Mas, pouco antes de atingirem o alvo, as flechas foram engolidas por chamas e derreteram. Cyril presumiu que a pessoa tivesse um aliado por perto. Não havia outra explicação. Afinal, a figura encapuzada não havia entoado nada. E não havia como anular os feitiços de Cyril sem fazer isso.
— Maldição… Maldição…!
Desta vez, criou muitas outras flechas de gelo e as disparou em direções aleatórias. Se a figura encapuzada tivesse um cúmplice, ele queria forçá-lo a sair. Mas a figura apenas ergueu a mão e, com esse único gesto, as flechas de gelo explodiram em chamas e derreteram como se nunca tivessem existido.
O quê…? O que* é *isso…?
Não era tão difícil usar um escudo para bloquear flechas disparadas aleatoriamente. Mas abater cada uma delas? O nível de técnica exigido era inimaginável. Ainda assim, aquilo que Cyril acabara de testemunhar fizera exatamente isso. Além do mais, depois de derreterem o gelo, as chamas desapareceram sem queimar as árvores ao redor. Aquilo era uma prova clara da precisão da magia. Cada uma das chamas fora construída com cálculos assustadoramente exatos. E tantas assim? Em questão de segundos?
O que… o que… o que eu estou vendo?
Alguém sem familiaridade com artes mágicas se distrairia com a serpente de fogo gigante, já que sua aparência era chamativa. Mas qualquer um que tivesse tentado usar ao menos um feitiço saberia o quanto eram anormais aquelas pequenas chamas que derretiam as flechas de gelo.
Escudos eram a defesa fundamental em combates entre magos. Em outras palavras, barreiras defensivas. Mas a pessoa diante dele não usara escudo algum, o que sugeria uma diferença técnica esmagadora entre ela e Cyril.
— O que… o que é você…? — Cyril abandonou a ideia de controle delicado. Converteu toda a mana que pôde em ar glacial e a lançou contra a figura encapuzada. — Congele! Congele, sua desgraçada! Vou transformar você em uma escultura de gelo silenciosa! — gritou, histérico.
A onda fria, tendo Cyril como centro, começou a congelar tudo à vista. O chão, as árvores… e até o próprio Cyril. Que importava se seus membros sofressem queimaduras de frio? Ele continuou com força total.
Então, porém, percebeu.
A onda fria que ele criara com todo o seu poder estava sendo empurrada de volta. Não, estava sendo desviada direto para o céu.
A figura encapuzada redirecionava a onda de frio de Cyril com magia de vento.
Ao mesmo tempo, o gelo preso aos membros de Cyril começou a se desprender em placas e cair no chão. Uma barreira fora conjurada sobre seu corpo para protegê-lo do frio. Cyril usara aquele feitiço sem se importar consigo mesmo. Não era ele quem criava a barreira.
Então é* ela *quem está fazendo isso…?
Se a figura encapuzada estava usando um feitiço de vento para redirecionar sua onda fria, e uma barreira defensiva protegia fisicamente o corpo dele… Em outras palavras, era provável que estivesse usando dois feitiços avançados ao mesmo tempo.
O cúmplice da figura encapuzada provavelmente estava escondido em algum lugar próximo, entoando encantamentos em silêncio. Só podia ser isso.
Mas… e se não for esse o caso?
Se aquela figura encapuzada estava usando tantas artes mágicas sozinha… então era algum tipo de monstro.
O sangue desapareceu do rosto de Cyril, e ele começou a tremer. A sensação de excitação e embriaguez que vinha com o uso de feitiços havia sumido, e sua pele ficou pálida.
— Ah…
Sua visão ficou turva, e seu corpo perdeu toda a força. Ele chegara ao fim da própria mana.
— Não existe… “não consigo”… Eu… Eu…
Cyril cerrou os dentes, tentando se manter consciente. Mas era inútil. Seu corpo ficou pesado, e a visão escureceu.
— Eu… preciso… corresponder…
Pouco antes de desmaiar, Cyril viu algo: a figura encapuzada correndo em sua direção, desajeitada a um ponto irremediável, antes de estender uma pequena mão.
— V-v-v-você… você está bem…?! — exclamou Monica, correndo até Cyril.
Ela apoiou a cabeça dele no colo e começou a examiná-lo. Ele estava inconsciente, e o pulso era um pouco fraco, mas sobreviveria. Com algum descanso, ficaria de pé outra vez.
— …Graças aos céus.
Em seus estágios iniciais, o envenenamento por mana causava uma forte sensação de excitação ao usar artes mágicas. Em estágios posteriores, podia provocar alucinações, palpitações e tontura. No pior dos casos, a mana corroía o corpo da pessoa até levá-la à morte. A maneira mais rápida de curar alguém com envenenamento por mana era fazê-lo usar artes mágicas até esgotar a própria mana enquanto ainda estivesse nos estágios iniciais da doença.
— Excelente trabalho.
Ryn apareceu. Ela estivera observando das sombras e olhou para o broche nas mãos de Monica.
— O item está com defeito, como você esperava?
— Sim… Uma falha surgiu na fórmula… Acho que ele não tinha uma fórmula de proteção.
Itens mágicos eram extremamente sensíveis. Eram, literalmente, objetos que guiavam o fluxo de mana. Se a mana não fosse guiada por uma fórmula correta, era provável que o item apresentasse mau funcionamento. Por isso, em geral, sobrepunha-se uma fórmula de proteção para resguardá-lo.
No entanto, o broche de Cyril não tinha tal medida.
— Itens mágicos sem fórmula de proteção costumam apresentar mau funcionamento quando o portador recebe um ataque mágico forte.
— Então é um produto defeituoso?! — gritou Nero, balançando a cauda, irritado. — Caramba! Quem foi que fez serviço pela metade?
— U-um… Há uma marca do fabricante gravada no verso…
Monica virou o broche e leu o nome. Sua expressão azedou.
— …Emanuel Darwin, o Mago das Gemas.
— Quem é esse? Hã? Alguém conhece?
Enquanto Monica hesitava em responder, Ryn interveio com seu tom factual.
— Ele, assim como a Bruxa Silenciosa, está registrado como um dos Sete Sábios. Não é amigo de Lorde Louis. Faz parte da facção do segundo príncipe. Segundo Lorde Louis, é um “ganancioso”.
Depois de alguns segundos de silêncio, Nero falou:
— Algum dos Sete Sábios tem a cabeça no lugar?
O comentário atingiu em cheio. Monica levou a mão ao peito e gemeu antes de reescrever uma nova fórmula mágica sobre o broche.
Esse tipo de feitiço, que concedia mana à matéria, pertencia às artes mágicas de imbuimento. Monica não havia estudado o assunto a fundo, mas a fórmula daquele broche não era muito complexa em sua construção, então conseguiu revisá-la com facilidade.
Em comparação, o broche que Louis fizera para Felix era um item mágico extremamente avançado. Ele não apenas rastreava o paradeiro do portador, mas também detectava perigo e criava uma barreira defensiva caso o usuário fosse atacado.
Este broche, por outro lado, fora feito apenas para absorver e emitir mana.
Talvez eu adicione uma fórmula de autorregulação para controlar quanta mana ele absorve de acordo com a quantidade que há no corpo dele a cada momento.
Sempre que Monica via fórmulas mágicas assim, sentia vontade de melhorá-las. Era um mau hábito. Ainda assim, se as funções do broche mudassem de forma significativa de repente, Cyril ficaria confuso. Então Monica corrigiu a falha na fórmula mágica, incorporou uma fórmula de autorregulação e parou por ali. Depois, sobrepôs duas fórmulas de proteção. Isso deveria impedir novos acidentes.
Enquanto recolocava o broche na gola de Cyril, Nero olhou para ela com malícia.
— Por que fazer tudo isso de graça, hein? Você poderia arrancar umas moedas de ouro dele só pelo conserto, certo?
— …Bem, isso é…
Monica fez uma pausa para organizar as palavras. Não conseguia evitar sentir um pouco de inveja de Cyril. Ele tinha tanto orgulho do fato de alguém tê-lo reconhecido, e trabalhava com diligência para conquistar esse reconhecimento, sem poupar esforços.
— Ter hiperabsorção de mana traz vários problemas, mas, se a pessoa aprender a controlar, um mago pode transformá-la em vantagem.
Se a taxa de absorção de mana de alguém era alta, isso também significava que a pessoa recuperava mana depressa. E uma recuperação mais rápida podia conceder vantagem sobre outros magos em batalhas prolongadas.
Na verdade, havia até magos que tentavam induzir isso de propósito, submetendo-se a treinamentos extenuantes para elevar a própria taxa de regeneração de mana.
Em outras palavras, a condição de Cyril podia muito bem ser considerada um talento.
— …Eu não queria… que ele visse o talento dele como uma maldição.
Monica nunca fora capaz de sentir orgulho das próprias habilidades. Não conseguia evitar vê-las como uma maldição. Mas não queria que Cyril acabasse como ela. Queria que ele pudesse estufar o peito e ter confiança. Que tivesse orgulho suficiente para compensar a falta de orgulho dela.
— Ei, hum, a propósito — disse Nero, cutucando a bochecha de Cyril com a pata dianteira. — E agora? Vamos deixar ele aqui dormindo até melhorar?
Ele havia levantado um ponto importante. Embora ainda não fosse inverno, Monica hesitava em deixar alguém naquelas condições dormindo do lado de fora, na floresta.
Enquanto ela se perguntava o que fazer, Ryn ergueu a mão.
— Posso usar uma rajada de vento para soprar o corpo dele de volta ao dormitório masculino.
— Eu prefiro algo um pouco menos violento…
— Então vou envolvê-lo em um tornado e fazê-lo voar de volta ao dormitório.
— Isso parece ainda pior!
Ainda assim, mesmo que Ryn entrasse escondida no dormitório masculino usando magia de voo, não conseguiria encontrar o quarto de Cyril. Monica estava sem saber o que fazer.
Por fim, Nero soltou um suspiro dramático e saltou no ar. Deu uma cambalhota antes de pousar e, um instante depois, já não era mais um gato preto. Em seu lugar estava um jovem de cabelos negros e olhos dourados.
— Eu vou carregá-lo até o portão do dormitório masculino. Se eu largar ele no chão por perto, alguém deve notar, certo?
Monica gemeu.
— Você realmente precisa largá-lo no chão?
— Não faria sentido eu entrar escondido e nós dois sermos pegos, faria? — disse Nero, erguendo o corpo de Cyril sem delicadeza e jogando-o por cima do ombro.
— U-um, Nero, pelo menos dá para colocá-lo nas costas…?
Nero a ignorou e impulsionou-se levemente contra o chão, disparando em corrida.
Pouco depois, sua silhueta se dissolveu na floresta escura. Anterior Próximo 🛒
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