Cap. 5 O Terror da Travessa Chengyu maio 31, 2026
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Meta 06/2026 (39,00%)Postado por miggigibe, ? Visualizações, Lançado em maio 31, 2026 Anterior ÍndicePróximo PDF
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Tradutor/Revisor: miggigibe
A luz pálida da lua atravessava o papel encerado da janela, lançando um brilho tênue que suavizava a escuridão do quarto em vez de aprofundá-la, trazendo consigo uma quietude que puxava a mente para o sono.
Ding Songyan permaneceu deitado em silêncio com seus pensamentos por algum tempo. Então virou a cabeça na direção do biombo e chamou em voz baixa:
— Irmãzinha.
Não houve resposta. Apenas o ritmo fraco e constante da respiração, tão suave que mal podia ser ouvido sem que a própria pessoa prendesse o fôlego para escutar.
Ela adormeceu… Ding Songyan desviou o olhar.
Ele acabara de se lembrar de que nem pensara em perguntar sobre a residência dos Zhen: que tipo de lugar era, qual posição ocupava na Prefeitura de Dingjiang e se, recentemente, havia se envolvido em alguma encrenca.
Começava a achar que o que acontecera com seu antecessor, um simples contador de histórias para todos os efeitos, talvez tivesse mesmo alguma relação com a família Zhen.
Deixa para lá. Pergunto de manhã…
Ele fechou os olhos e tentou se induzir ao sono, mas o sono não veio.
Depois de se formar, trabalhara por dois anos. Em seguida, passara muitos outros construindo seu negócio, sempre longe de casa, voltando no máximo duas vezes por ano. Já houvera noites assim antes, desperto no meio da madrugada, sentindo o vazio dolorido da vontade de voltar para casa. Mas, na maior parte do tempo, não sentira nada parecido, e até zombara de si mesmo por isso, chamando-se de frio.
Agora, porém, naquele instante, uma melancolia se assentou sobre ele, e Ding Songyan não encontrou maneira de afastá-la.
Os antigos poetas ainda podiam dizer: Que vivamos ambos por muito tempo e compartilhemos esta luz da lua, mesmo separados por mil léguas.
Mas, para ele, aquela lua não era a mesma lua. E a lua daquela noite não pertencia a nenhuma vida que ele conhecera.
Então, do outro lado do biombo, Ding Qingyan murmurou:
— Quero aprender artes marciais…
As palavras se apagaram no silêncio, sem continuação.
Falando dormindo…
Ding Songyan abriu os olhos e olhou instintivamente para o biombo simples.
Alguns instantes se passaram. Então ele disse para si mesmo, sem emitir som:
Quem não quer?
Seu olhar voltou para as vigas mergulhadas em sombra.
Então Ding Qingyan murmurou outra vez, as palavras mal formadas:
— Mãe, Segundo Irmão… eu não vou deixar ninguém maltratar vocês de novo…
Ding Songyan congelou ao ouvir aquilo. Um longo momento se passou antes que uma risada baixa e amarga escapasse dele.
Os pequenos sons de uma garota se virando durante o sono preencheram o quarto. Aos poucos, sua mente se aquietou.
O sono, enfim, veio.
Na manhã seguinte, a chegada barulhenta da carroça dos dejetos noturnos arrancou a cidade do escuro.
Ding Songyan levou seu balde de dejetos para o pátio e encontrou o pai, Ding Shengyi, já abrindo o portão da frente.
Os mosquitos que repousavam perto do olmo se dispersaram de uma vez, arrastando consigo um grupo de mariposas que parecia estar escondido em algum lugar próximo.
Um a um, eles esvaziaram os baldes na carroça e depois usaram a água de enxágue para regar a árvore. Quando terminaram, Ding Songyan ouviu o pai, que já havia colocado o barrete de quatro cantos, dizer a Liu Yuzao com admiração indisfarçada:
— O encarregado da coleta lá fora veste pano grosseiro por fora, mas, por baixo, é só seda. No dia a dia, vive melhor que o chefe dos constáveis do yamen.
— O comércio de dejetos é mesmo um ótimo negócio!
— Pessoas capazes de monopolizar esse tipo de comércio não são gente comum — disse Liu Yuzao, sem demonstrar emoção particular.
— Se quer saber minha opinião, o Templo Dangkang é o verdadeiro benfeitor de todos os lares. Ele não apenas oferece preces e ritos para harmonizar os céus. Seus discípulos também percorrem as aldeias ensinando técnicas agrícolas e a arte da compostagem. Desde que Sua Majestade subiu ao trono, as colheitas têm sido boas ano após ano, e o preço dos dejetos só faz subir.
Ding Shengyi estava diante do olmo, escovando os dentes com sua escova de cerdas, enquanto falava.
E assim a luz da manhã foi passando suavemente, entre conversas familiares e um café simples de mingau de arroz com pequenos acompanhamentos.
Enquanto Liu Yuzao e os demais recolhiam as tigelas e limpavam a mesa quadrada, Ding Shengyi chamou Ding Songyan de lado.
— Você tem coisas a fazer hoje. Não economize consigo mesmo. Pegue estes dois qian de prata.
O estudioso de meia-idade lançou um olhar para as costas de Liu Yuzao e pressionou um pequeno pedaço de prata quebrada na mão de Ding Songyan, falando em voz baixa:
— Isto não é dinheiro da casa. Foi o que eu guardei por conta própria. Fique com ele.
Ding Songyan, que não tinha nada em seu nome, não recusou.
Ding Shengyi ficou em silêncio por dois fôlegos, então disse ainda mais baixo:
— Tome cuidado hoje. Não corra riscos só porque há um retentor da residência dos Zhen vigiando você.
Dito isso, deu um tapinha no cotovelo de Ding Songyan, pegou seu leque dobrável e saiu pelo portão do pátio.
Ding Songyan ainda nem havia se virado para ajudar a mãe e a irmã na arrumação quando Ding Niu se aproximou, coçando a cabeça com ar envergonhado.
— Songyan, não tenho muito comigo. Entreguei tudo para a mãe. Se não encontrar nada para comer ao meio-dia, vá me procurar nas docas. Eu divido o que tiver.
— Está bem — disse Ding Songyan.
Depois que Ding Niu foi embora, Liu Yuzao terminou de arrumar as coisas e se aproximou de Ding Songyan com o chapéu de véu de gaze preta em mãos.
— Hoje vou copiar sutras budistas. Aqui estão dois qian de prata.
Seu tom era prático, como se não quisesse que ele sentisse o peso daquilo.
— Se você apenas ficar andando pelo Templo Dangkang hoje, vai parecer suspeito. Compre algo para comer se alguma coisa lhe chamar atenção. Compre algo se gostar do que vir.
Ao receber mais um pedaço de prata quebrada em sua mão, Ding Songyan ficou sem palavras.
Ele observou a mãe sair pelo portão do pátio e fechá-lo atrás de si. Então Ding Qingyan, já com o cabelo preso nos dois coques espiralados, apareceu à entrada da sala principal e acenou para ele de modo conspiratório.
— Segundo Irmão, venha aqui. Venha.
Ding Songyan se aproximou e riu baixinho.
— Eu não vou pegar suas economias.
A garota inflou os lábios.
— Então você me despreza? Não me trata como sua irmã, é isso?
Ela ajeitou o rosto em uma expressão trêmula, como se estivesse prestes a chorar.
Ao ver que Ding Songyan permanecia completamente impassível, soltou um muxoxo.
— Eu só quero lhe dar algumas moedas de cobre. Você vai ao Templo Dangkang hoje. Com certeza vai querer ouvir os contadores de histórias, escutar sobre história antiga, sobre o jianghu. Vai mesmo dar gorjeta a eles com prata?
Leu bem demais…
Ding Songyan já vinha considerando a ideia de passar o dia nas rodas dos contadores de histórias para começar a formar uma imagem de como aquele mundo funcionava.
Ele pensou por um instante e disse:
— Tudo bem. Me dê algumas.
O rosto de Ding Qingyan se iluminou na hora. Ela saltitou de volta para a ala oeste e retornou com uma bolsa de moedas bordada, de aroma levemente adocicado.
Dentro havia vários pequenos lingotes de prata e uma boa quantidade de moedas de cobre soltas.
Ding Qingyan contou as moedas de cobre enquanto falava, sua voz seguindo sem parar.
Então, aos poucos, ela se calou.
Quando Ding Songyan recebeu as moedas, o sorriso de Ding Qingyan voltou. Ela ergueu um punho pequeno.
— Segundo Irmão, mesmo que você tenha esquecido tudo, eu não esqueci. E não vou esquecer!
Ding Songyan soltou um suspiro discreto e só pôde dizer, com um ar condescendente:
— Talvez um dia eu me lembre de tudo.
Ele virou as moedas nas mãos. Havia dois tipos: uma marcada como “Tesouro Pesado Xingping”, com a inscrição “vale cinco”, e outra marcada como “Tesouro Circulante Jianwu”. Juntas, somavam cerca de cinquenta wen.
Os caracteres estão em escrita regular, na forma tradicional. Consigo lê-los bem o bastante… Escrevê-los já é outra história…
Ele guardou os dois pedaços de prata quebrada no bolso interno da manga, costurado na altura do cotovelo de sua túnica reta clara, e colocou as moedas de cobre na bolsa presa à cintura.
Então ergueu os olhos.
— Mãe acredita no budismo?
— Não. — Ding Qingyan balançou a cabeça. — Esse é o trabalho dela. Muitas famílias ricas, para demonstrar devoção, mandam copiar grandes quantidades de sutras budistas ou textos daoístas. Às vezes, quem copia são membros da própria família. Em outras, são pessoas contratadas. Como esse tipo de trabalho costuma agradar às mulheres da casa, elas preferem encontrar mulheres de famílias decentes que saibam ler e escrever para ajudar. Quando eu chegar à idade adulta, também poderei ir.
— Então mãe ganha dinheiro copiando sutras e escrituras? — Ding Songyan compreendeu, confirmando ao mesmo tempo que aquele mundo possuía tanto budismo quanto daoísmo.
— Esse tipo de serviço não aparece sempre. Costuma surgir perto de festivais budistas ou quando alguma matriarca de uma grande casa faz aniversário.
Ding Qingyan ergueu a bolsa de moedas, que parecia consideravelmente pesada.
— Na maior parte dos dias, mãe trabalha como penteadeira. Ela entra nos aposentos internos das casas e ajuda as senhoras com penteados elaborados. Também faz depilação facial, limpeza de ouvido e coisas assim. Quando não há trabalho, fica em casa, lava e esfrega roupas comigo, além de cuidar da comida.
Ding Songyan assentiu, então lançou a Ding Qingyan um olhar com um traço de preocupação.
— Então você passa boa parte do tempo sozinha em casa?
Ding Qingyan caiu na risada.
— Segundo Irmão, não se preocupe. Há cinco torres de vigia aqui. Tanto as artes da Seita da Noite Clara quanto as do clã Yi são fortes em visão à distância. Ninguém ousaria me incomodar.
— Além disso, sou bastante formidável. Todos os meninos e meninas da Travessa Chengyu fazem o que eu digo.
Ela ergueu o punho outra vez.
— Eu sou o terror da Travessa Chengyu!
Antes que Ding Songyan pudesse responder, a garota piscou, e seu sorriso floresceu como uma flor se abrindo.
— Mas o fato de você ter se preocupado comigo me deixa feliz.
— Significa que, mesmo tendo esquecido tudo, Segundo Irmão, o laço entre nós ainda existe!
Toc. Toc. Toc.
Alguém bateu ao portão do pátio.
— Irmão Ding, está na hora de ir! — chamou lá de fora uma voz de adolescente em mudança.
Ding Songyan olhou para Ding Qingyan. A irmã assentiu de leve. Ele atravessou o pátio e abriu o portão.
Do lado de fora estava um jovem de túnica azul de mangas estreitas, com o cabelo preso em um pano preto. Pelas estimativas de Ding Songyan, ele tinha menos de um metro e setenta. Suas feições eram decentes, mas sua postura era furtiva. Os olhos se moviam de um lado para o outro, dando-lhe uma aparência ardilosa, quase de doninha.
— Ah, Qingyan também está em casa.
O olhar do jovem deslizou direto por Ding Songyan e pousou em Ding Qingyan, dentro do pátio.
Onde mais ela estaria?
Ding Songyan olhou para o jovem e ergueu uma sobrancelha.
O rapaz encolheu os ombros e soltou uma risada constrangida.
— Irmão Ding, acho melhor irmos andando. Soube que você teve um probleminha ontem?
Nesse momento, Ding Qingyan chamou de alguns passos atrás:
— Xu Chang’an, espere um momento. Tenho algumas palavras para meu Segundo Irmão.
— Claro, Irmã Qingyan.
Xu Chang’an assentiu depressa e acenou para ela.
Ding Songyan voltou para dentro, indicando que ela podia falar.
Ding Qingyan o puxou na direção da sala principal e baixou a voz.
— Esse é Xu Chang’an. Ele também mora na Travessa Chengyu, perto do poço. Você gostava de ir ao Templo Dangkang com ele.
— Ele é ladrão.
— Ladrão?
A mão de Ding Songyan se moveu instintivamente para o cotovelo da manga.
Ding Qingyan riu.
— Ele não ousaria roubar você. Não se quiser prestar contas ao terror da Travessa Chengyu!
— Escute, enquanto estiver fora hoje, pode me ajudar a escolher um presente para Qu Zhongheng? Ontem ele teve todo aquele trabalho por nossa causa, então precisamos demonstrar gratidão. Não se deve deixar favores demais acumularem sem retribuição. Lembre-se: ele gosta de brinquedos mecânicos e engenhocas. Eu lhe dou o dinheiro hoje à noite.
É o certo a fazer…
Ding Songyan aprovou.
A irmã acrescentou mais alguns lembretes e lhe deu um breve resumo da situação da residência dos Zhen. Só então deixou Ding Songyan sair com Xu Chang’an e deixar a Travessa Chengyu.
— Irmão Ding, o que aconteceu com você ontem? — perguntou Xu Chang’an no caminho, incapaz de conter a curiosidade.
Ele estava genuinamente preocupado, é claro. Em sua própria cabeça, aquele era seu futuro cunhado.
Ding Songyan não se apressou. Em vez de responder, devolveu a pergunta.
— A que horas você saiu do Templo Dangkang ontem?
— Depois da sessão do entardecer. Fui procurar você, mas você já tinha ido embora — respondeu Xu Chang’an, sem suspeitar de nada.
Os movimentos do Ding Songyan anterior foram mesmo estranhos…
Ding Songyan não explicou coisa alguma. Apenas continuou fazendo perguntas, extraindo informações e construindo seu quadro geral das coisas.
Conversando e brincando pelo caminho, os dois chegaram ao Templo Dangkang, no lado leste da cidade-sede da prefeitura.
O mercado do lado de fora do templo era imenso, e a multidão, densa, ombro contra ombro. Frutas, verduras, carnes curadas, enfeites de pérola e pingentes de jade, lâminas e armas, leques dobráveis, figuras de açúcar e peixes caramelizados estavam todos expostos. Cuspidores de fogo e conjuradores daoístas se apresentavam, junto de jogadores de bola com os pés e acrobatas, cantores e dançarinos. Barracas de jogos de azar e de arremesso ao pote tentavam atrair os passantes, enquanto vendedores ambulantes de remédios ofereciam curas duvidosas e o bom e velho alcaçuz. Havia de tudo, por todos os lados.
Em meio ao barulho dos vendedores e chamados, Ding Songyan e Xu Chang’an pararam ao lado da roda de um contador de histórias.
— Da última vez, paramos em Jin Shaochong, discípulo da linhagem direta da Seita da Eternidade, do Reino Gan, que partiu para desafiar o jianghu com sua espada. Mas, antes mesmo de chegar a Nova Yu ou ao nosso Grande Zhao, encontrou-se nas Montanhas dos Cinco Montes, no Reino Gan, com Su Yunzhang, discípulo de quarta geração da Seita da Donzela Celestial, que rompeu sua Arte da Espada das Sete Mortes com os Doze Caminhos do Grande Vazio e lhe disse sem rodeios que sua fraqueza era uma intenção assassina insuficientemente firme.
— Naquele dia, o nome de Su Yunzhang abalou o mundo. Aqueles que gostam desse tipo de coisa o colocaram no Ranking das Árvores de Jade do Jianghu, com o comentário: “límpido e elegante, brilhante e livre”. Anterior Próximo 🛒
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